30 janeiro 2014

Quase quarenta anos a fazer ligações diretas


Os Xutos e Pontapés são daquelas coisas que mesmo que quisesse não me conseguiria desprender. São quase quarenta anos de rock que acompanharam os quarenta anos de democracia. E são sobretudo fruto de uma mudança na sociedade portuguesa que acolheu o riffs alucinantes, o ritmo acelerado, a crítica ácida ao sistema e ao poder e o espírito anti-subversivo. Não foram só os Xutos mas neste novo disco - Puro - eles voltam a confirmar que são provavelmente a banda de rock português mais sólida do ponto de vista de produção de originais desde 1978. Não desapareceram da ribalta, estiveram sempre a produzir e no essencial não mudaram a sua identidade nestes tempos em que a música que roda nos grandes circuitos comerciais tem percorrido caminhos estranhos onde o rock quase já não cabe. 


Confesso que também estou cansado de ouvir em tom de circunstância a “Maria”, “o Homem do Leme”, “A minha casinha” ou o “Não sou o único”, mas estes 36 anos de banda são muito mais do que a mediatização de alguns singles. São treze discos de originais de uma banda que marcou várias gerações desde final dos anos 70 e que, ao contrário de muitas outras grandes bandas, contínua a lançar discos que não se resumem a mastigar as sonoridades que lhes permitiriam continuar a existir. Quem ouve hoje o seu novo álbum “Puro” encontra um cruzamento de tempos, de estilos, de sonoridades rock, hardrock, punk e de temas que respeitam a história da banda mas que lhe dão uma nova vivacidade.
Em temas como “Ligações Directas”, “Voz do Dono”, “Salve-se quem puder” ou “A Nação” encontramos uns Xutos em abordagens de hardrock e punk onde as distorções são acompanhadas de letras de homenagem às “puxadas” que o povo do bairro do Lagarteiro no Porto fez quando a EDP lhes decidiu cortar a luz, letras sobre a emigração e desemprego, letras sobre um país pobre e em desespero. Nestas e noutras músicas vemos que continuam vivas a raiva e a crítica social da história de “Leo” nos anos 70, “Sai Prá Rua” ou a “Carta Certa” nos anos 80, “Estupidez” ou “Dia de S. Receber” nos anos 90 e “Esta cidade”, “Fim do mês” ou “Zona Limite” a partir de 2000. Neste disco os Xutos e Pontapés retomam a crítica social e política que, de forma mais ou menos constante, marca toda a sua obra e que apesar de estar presente no seu penúltimo disco de 2009 em músicas como “Sem eira nem beira”, assume neste disco uma sonoridade acelerada e mais pesada. Por outro lado, em “O Milagre de Fátima”, a bateria e os riffs fazem anunciar um punk subversivo e ácido que vem da tradição de “Ave Maria”.

Puro é boa novidade para o Rock e para a Música. Respeita a memória, orgulha a história da banda e inova onde tem de inovar. É bom saber que ainda há músicos deste calibre. 

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