28 abril 2014

“Jogos de Poder”, uma viagem ao capitalismo de casino à portuguesa


Com lançamento marcado para esta semana, o livro “Jogos de Poder” – uma investigação jornalística de Paulo Pena editada pela Esfera dos Livros – percorre os anos da crise financeira. E mostra-nos como a fatura do colapso de um sistema comandado pela banca privada acabou por vir parar aos bolsos dos contribuintes.

“Esta é a pior crise que qualquer um de nós já viveu e, no entanto, sabemos tão pouco sobre ela…” (p.21), responde o autor a quem queira saber a razão de resumir um ano de investigação jornalística em pouco mais de duzentas páginas: da crise financeira de 2008 à luta pelo domínio do BCP, passando pelos omnipresentes offshores, as OPA’s à PT e BPI, os negócios do BES com a Ongoing ou as fintas de Oliveira e Costa aos reguladores e a dança das cadeiras entre sucessivos governos e o sistema financeiro.

“A captura da política pela banca” é apresentada enquanto fenómeno “generalizado e evidente” (p.117): está nos CV’s dos governantes, mas também dos reguladores: desde 1986, todos os governadores do Banco de Portugal já tinham ocupado lugares importantes quer na banca comercial quer em altos cargos políticos. O livro aponta exemplos dessa promiscuidade entre política e finança, que também está presente em operações como as PPP e os swaps, ou na origem do crescimento exponencial do crédito à habitação e da atividade imobiliária. Foi assim que “os banqueiros construíram uma torre de marfim num pântano” (p.72), que ficou à vista de todos em 2011, com as célebres entrevistas na TV a reclamarem a urgência da intervenção da troika.

A fatura total para os contribuintes da União Europeia, até ao momento, do colapso da aventura dos bancos, já foi estimada em 1,3 biliões de euros. São vinte empréstimos da troika a Portugal ou 15% do PIB dos países da UE gasto em ajudas à banca numa altura em que o desemprego disparou. Esta “bancocracia”, que domina os centros de decisão das escolhas fundamentais e usa a política como porta giratória, esteve na origem da crise, conseguiu transferir as suas perdas para as pessoas e ainda ganha com isso, graças a agências de rating que condenam países à austeridade através das previsões da evolução dos juros das dívidas.

Jogos de Poder” é uma viagem aos primeiros anos da crise, com escala na Islândia e Hungria, quando os dois países se tornaram, cada um à sua maneira, em laboratórios da democracia sob tutela da austeridade.  A conclusão do livro não deixa ninguém tranquilo, na medida em que o poder da bancocracia aumentou e o risco de novas crises também: “A crise foi e ainda é motivada por uma cultura, uma visão política e um modelo económico que permanecem, no essencial, inalterados(p.199). Sendo um excelente contributo para compreender estes últimos anos, cumpre bem a finalidade enunciada na abertura: “para dar sentido àquela, por vezes menosprezada, função do jornalismo: garantir aos cidadãos informação, verificada, que lhes permita tomar decisões. E escolher.(p.21).

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