08 janeiro 2015

O sono dos justos

Parece que "ser Charlie" é ser hipócrita, em particular quando não se denunciam ataques imperialistas, quando não se expõem as contradições do capitalismo apocalíptico e quando não alinhamos pelo mesmo diapasão em todas as questões acerca das quais só pode haver uma opinião e um grau de coerência ditado por quem nunca, em tempo algum, a perde. Quem caracteriza o Islão como fascismo verde e a NATO como keynesianismo militarizado está nesse campo. Sendo assim, prefiro a consistência Oscar Wilde.

De resto, ficam aqui dois exemplos, com a leitura que lhes associo e é evidente pela escolha.

Sim, é verdade que este tipo de atenção devia ser votado a assuntos que algumas pessoas consideram mais importantes. Mas não é plausível que esta atenção seja hipócrita ou constitua uma instância de lágrimas de crocodilo. Quem defende isto sofre de misantropia grave.

É também evidente que "ser Charlie" é uma distracção criada pelas redes sociais e os puristas poderão sempre optar pela sua recusa. É uma escolha inteiramente legítima. Mas contestar a escolha de quem considera o assassinato de doze pessoas um acto bárbaro, apesar de não ter o mesmo impulso condenatório no que resta do ano, ao apoiar o austeritarismo, ao reprovar a luta dos trabalhadores, ao negar a existência de esquerda e direita, ao recusar a discussão sobre o mérito da permanência no euro, ao aceitar a primazia da dívida sobre direitos humanos, é pouco hábil. Remete para uma impossibilidade concreta: a de manter a mesma atenção equânime sobre todos os assuntos que ocupam a esfera mediática. As capas de hoje não resgatam a imprensa das omissões, muitas vezes politicamente motivadas, de que é culpada ao longo de muitos ciclos mediáticos. Mas não há aqui equivalência: as omissões anteriores não mancham as capas de hoje. Ou seria preferível que os acontecimentos de ontem fossem silenciados?

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