Mostrar mensagens com a etiqueta Europa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Europa. Mostrar todas as mensagens

24 fevereiro 2015

O pecado de Juncker e o servilismo dos cães de fila


Estas últimas semanas confirmam que não estaremos longe da realidade se dissermos que os últimos sete anos ficarão profundamente inscritos na história social e política da europa. A forma como a crise financeira foi habilmente transformada pela elite europeia numa crise das dívidas soberanas, fez com que se operasse uma profunda mudança na relação de forças à escala europeia, que se traduziu num ataque sem precedentes a todos os direitos sociais, económicos, culturais e políticos conquistados principalmente no século XX. Estes sete anos representaram essa mudança de paradigma, em que austeridade se consubstanciou enquanto filosofia integradora da maior regressão civilizacional de que muitos e muitas teremos memória.

Mas se este processo de regressão civilizacional em curso teve consequências sociais brutais, a loucura europeia destes anos teve também consequências políticas arrasadoras. Os chamados partidos socialistas protagonizaram uma impressionante viragem à direita sendo protagonistas, aliados ou submissos de todas as políticas de austeridade destes anos. Voltámos a ter que lidar com a brutal ameaça das organizações fascistas e de extrema-direita. E assistimos agora a uma recomposição na esquerda com um conjunto de partidos com um programa anti-austeritário e de desobediência às instituições europeias que conseguem ser maioritários nos seus países.

Era impossível que os burocratas europeus assistissem sem reação a este furacão político. Depois do governo do Syriza na Grécia ter colocado pela primeira vez a hipótese de uma alternativa política de esquerda vencer na europa e depois do governo alemão ter assumido que é ele quem dirige a política europeia, Jean-Claude Juncker veio num tom surpreendente afirmar que “pecámos contra a dignidade dos povos, especialmente da Grécia, em Portugal e na Irlanda” referindo inclusive que “falta legitimidade democrática à troika”. De facto, só podemos valorizar a autocrítica de Juncker : “Eu era presidente do Eurogrupo e pareço estúpido em dizer isto, mas há que tirar lições da história e não repetir erros”.

Quais serão estas lições e qual a sua tradução política imediata? 

20 fevereiro 2015

Varoufakis vai ao quarto 101

“The Greek government has gone, not the extra mile, the extra ten miles and now we're expecting our partners to meet us... not halfway, but one fifth of the way,” - Yanis Varoufakis, hoje.

Infelizmente, terá de ser o governo grego a fazer o último quinto. E a enfrentar um processo que se afigura complicado - interna e externamente.

Apesar de todas as afirmações inacreditáveis do aparato mediático português, que se depõe aos pés do Eurogrupo e ameaça tirar o açaime para morder o pescoço de Tsipras e Varoufakis, a realidade continua, teimosamente, a contar outras histórias.

Keynes e Versalhes em 2015

Os acontecimentos de hoje, que parecem indicar uma capitulação parcial do governo grego (a carta enviada por Varoufakis faz cedências que contradizem factualmente parcelas importantes do programa de Salónica) e um descontrolo crescente do Ministério das Finanças alemão, que qualifica a proposta grega de "Cavalo de Tróia", fizeram-me voltar a um livro curto de Keynes, do qual ouvi falar no liceu e que me apressei a ler. Foi o primeiro contacto com essa figura fascinante. Hoje, porque também parece claro que o governo federal alemão só aceita uma rendição incondicional e humilhante, decidi regressar a esse texto. Com a ajuda do Projecto Gutenberg, podemos lê-lo na íntegra. A presciência continua a ser perturbadora, tendo em conta o que veio a suceder. E a ignorância da eurocracia contemporânea também.

Diz Keynes, em 1919 (ênfases bold meus):

17 fevereiro 2015

Duplopensar

O DN afirma, em notícia intitulada "UE e Draghi protegem Portugal de contágio grego", que "as instituições europeias estão preparadas para dar a mão a Portugal, além da liquidez já assegurada pelos países do euro, com uma intervenção extraordinária do BCE, por exemplo, para contrariar os efeitos de uma eventual desagregação da união monetária - escalada dos juros, perda de confiança, recuo do investimento e recessão económica."

Ficamos sem perceber como é que o BCE sobrevive à desagregação da união monetária e como poderia, sem violar clamorosamente os seus estatutos e o Tratado de Lisboa, apoiar directamente Portugal. Mas essa é só uma parte da história.

A outra parte da história, mais sombria, é a história que será contada sobre as fábricas do consenso eurotópico e sobre a estupidez cipolliana que atravessa a zona euro. A UE está a caminho do abismo autoritário e os seus decisores empurram-se com palmadas venenosas nas costas.

20 outubro 2014

O que o PS quer fazer com a dívida?


Há uma modorra que se instalou na política portuguesa e que se plasma neste que é o Orçamento de Estado do purgatório: o único que é apresentado depois da saída oficial da troika e antes da total implementação do Tratado Orçamental. O último que é inteiramente desenhado por Passos e Portas e sancionado por Cavaco. O derradeiro antes de se saber com quem e como governará o Partido Socialista. É o orçamento da espera.

Neste cenário, a nova liderança do PS ganharia em apresentar uma solução alternativa ao verdadeiro nó górdio do Estado: 7900 milhões de euros apenas em pagamento de juros da dívida (um aumento de 3,6% em relação ao anterior orçamento) ou o mesmo que 104% da dotação orçamental da Saúde em 2014. A escolha de Ferro Rodrigues para a liderança da bancada parlamentar terá alentado alguns sectores à esquerda, não fosse ele um dos 74 subscritores do Manifesto "Reestruturar a dívida insustentável e promover o crescimento, recusando a austeridade", transformado numa petição pública que alcançou mais de 35 mil assinaturas.

27 maio 2014

Declínio do bipartidismo, ascenso do PODEMOS e reforço do soberanismo na Catalunha



Por Jaime Pastor

«Pese a que la participación ha sido solo de un 45,85 %, las elecciones al Parlamento Europeo se han convertido en un primer test de la evolución de la situación política y social española desde que gobierna el PP. Por eso, aun no siendo extrapolables a unas elecciones generales, sus resultados marcan un punto de inflexión en el marco de la agravación de la crisis del régimen y del ciclo de luchas inaugurado hace tres años por el 15M, apuntando hacia un cambio radical en el panorama político de los próximos años.

El dato más relevante es el anuncio del principio del fin del bipartidismo, como se está reconociendo en la casi totalidad de los medios de comunicación. En efecto, el retroceso de los dos grandes partidos es incuestionable, si bien es el PSOE el principal perjudicado. El PP pasa de obtener un 42,12 % de votos y 24 escaños en 2009 a 26,05 % y 16 respectivamente ahora, mientras que el PSOE desciende de de 38,78 % de votos y 23 escaños a 23% y 14. Nunca había ocurrido que la suma de ambos partidos estuviera por debajo del 50% de votos y, por tanto, cabe pronosticar que esa tendencia va a ser difícilmente reversible a escala estatal, si bien es probable que todavía se exprese de forma desigual (como en el caso de Andalucía, en donde el PSOE resiste relativamente bien) con ocasión de las elecciones autonómicas y municipales de mayo del próximo año.

07 maio 2014

Apelo para as Eleições Europeias: Economistas europeus por um novo caminho

Nas vésperas das eleições europeias de maio de 2014, a Europa, vítima de continuadas políticas de austeridade, está numa situação de estagnação económica e de uma forte subida das desigualdades, assim como está perante um fosso cada vez maior entre os países do centro e os da periferia. A democracia está a ser minada ao nível nacional e não progride ao nível europeu. O poder concentrou-se entre as mãos de instituições tecnocráticas, que não têm contas a dar a ninguém, e as dos Estados mais fortes. Ao mesmo tempo, desencadeiam-se vagas de populismo sobre a Europa, com a subida de perigosos movimentos nacionalistas em certos países. Esta não é a Europa que se imaginou há algumas décadas atrás, como um espaço pacificado de integração económica e política. Esta não é a Europa que prometia progressos económicos e sociais, a extensão da democracia e dos direitos sociais. É necessária uma mudança radical. As eleições europeias de maio de 2014 são uma oportunidade importante para rejeitar o impasse da Europa neoliberal, assim como as tentações populistas, e afirmar que é possível Um Outro Caminho para a Europa.

A Rede de Economistas Progressistas Europeus (Euro-pen), que reúne economistas e grupos da sociedade civil, apela aos cidadãos europeus e às forças políticas e sociais a que se empenhem num debate à escala de toda a Europa sobre as alternativas possíveis. Propomos cinco eixos de mudança radical nas políticas europeias. Estas ideias deveriam estar no centro da campanha eleitoral, bem como nas atividades do novo Parlamento Europeu e da Comissão Europeia.

02 março 2014

Sementes de guerra


Em Março terá lugar uma decisão importante no Parlamento Europeu: permitir que os e as agricultoras possam utilizar, vender e trocar sementes ou, pelo contrário, privatizar as sementes e favorecer o negócio de grandes empresas. Uma escolha que afetará a vida de milhares de pequenos e pequenas produtoras, assim como a diversidade dos ecossistemas agrários e dos alimentos a que temos acesso. Em suma, uma escolha que determinará muito do futuro da alimentação e da produção de alimentos. 

A venda e troca de sementes tornou-se num dos negócios mais apetecíveis a nível mundial. Estima uma consultora que o mercado de sementes comerciais - convencionais e transgénicas - crescerá dos 35 mil milhões de dólares atuais para os 53,3 mil milhões dólares em 2018. Diz-nos o Grupo ETC que apenas 3 empresas controlam 53% do mercado mundial de sementes, enquanto 10 têm nas suas mãos mais de 3/4 deste mercado (76%)A Monsanto lidera com 27%.