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30 outubro 2014

A luta voltou ao muro, a censura voltou à academia





Não é novidade para ninguém que as universidades são um palco de lutas pelo exercício e autoridade do poder. Desde 1088 que os então Studium Generale e mais tarde as universidades viviam uma relação ténue entre o poder eclesiástico e o poder político das monarquias. Mas é também na época moderna que se consolidaram instituições de ensino que nunca deixaram de ser permeáveis ao exercício do poder político e económico. Recordemos os casos de Ludwig Bernhard (1875-1935) que foi nomeado politicamente por decreto governamental para um cargo académico sem qualquer consulta aos órgãos científicos da universidade ou Robert Michels (1876-1936) impedido de se candidatar a professor por ser militante do Partido Social Democrata Alemão e não batizar os seus filhos.

Mas se olhando para a evolução democrática das nossas sociedades, estes casos denunciados por Max Weber em 1908 parecem de um tempo distante, o recente episódio de censura na revista cinquentenária Análise Social do Instituto de Ciências Sociais (ICS) mostra-nos como a liberdade académica consegue ser, ainda hoje, absolutamente permeável ao exercício do poder político, ideológico e conservador.

Na Analise Social, o investigador Ricardo Campos da Cemri – Universidade Aberta, iria publicar o ensaio visual “A luta voltou ao muro”, sobre a forma como a contestação social em Portugal voltou a ser feita nas paredes, em inúmeros graffitis que pela cidade de Lisboa questionam o poder financeiro, económico e político que tem governado Portugal e a Europa. O ensaio foi aceite e a revista foi editada e lançada na sua versão online. Contudo, o Diretor do ICS, José Luís Cardoso, deu ordens para que fossem destruídos os exemplares impressos da revista por considerar o ensaio de “mau gosto e uma ofensa a instituições e pessoas que não podia tolerar”. José Luís Cardoso considerou que tinha o direito de fazer do seu critério moral e ideológico, o critério científico de aceitação do ensaio. Assim, desautorizou diretamente o Diretor da Revista, João de Pina Cabral, um dos mais reputados antropólogos portugueses e europeus, para defender “o bom nome e a reputação institucional do ICS”.

21 outubro 2014

O grande encontro do Teatro O Bando



Um ano de preparação parece pouco para condensar numa peça a densidade dos quarenta anos do Teatro "O Bando". Mas foi certamente um ano de imenso trabalho. Na peça "Quarentena" somos transportados para três horas de uma intensidade invulgar: quarenta personagens, quarenta textos representados pelo bando, quarenta escritores de língua portuguesa, quarenta anos de história da companhia. Mas não é apenas a dimensão propriamente histórica que está em questão nesta peça. Ela é uma arquitetura de uma complexidade imensa. Tem dois finais diferentes consoante o dia em que se assiste ao espetáculo e seria preciso pelo menos 4 sessões para se conseguir assistir a toda a peça. 

Não é uma peça qualquer. À entrada o público é dividido por grupos que fazem um percurso autónomo pela vila, percorrendo espaços, obras literárias e fragmentos da história da companhia. Viaja-se por catacumbas, espaços abandonados, campo, autocarros e muitos outros lugares improváveis. No fim, depois de um jantar durante o espetáculo, todos os grupos vão ter ao grande encontro. E é mesmo um grande encontro. Acompanhados por 16 músicos, os 24 atores da peça confrontam-nos sobre a possibilidade de um futuro que rompa com o silêncio. Um futuro com palavras. Esse futuro pode ser amanhã ou pode ter sido ontem. Esse futuro pode existir, ou não. É essa a dinâmica do encontro. 

Na "Quarentena" tem-se uma oportunidade única de viajar por uma companhia com um papel ímpar na história do teatro e da cultura portuguesa. E nela é mesmo possível que quem, como eu, não acompanhou estes 40 anos do bando, fique simplesmente apaixonado por ele. Creio que é mesmo isso. Depois de ver esta peça, senti-me realmente apaixonado pelo bando. E recomendo muito que se apaixonem também. 

06 outubro 2014

O Livre e a ilusão do “arco constitucional”



O sistema partidário português terá muitos vícios e problemas. Mas um dos seus aspetos positivos é o facto de na maioria dos partidos os documentos políticos em discussão serem públicos e por isso suscetíveis de debate na opinião pública. É a esse debate que procurarei responder abordando a única moção estratégica que foi apresentada ao I Congresso do partido Livre que acontece hoje em Sintra e que contará com um discurso de António Costa.

26 setembro 2014

O mínimo salário do atraso

Depois de tanta insistência lá se conseguiu um aumento do salário mínimo. Pena que tenha sido tão curto, residual, acompanhado de uma benesse para os patrões e nos continue a colocar num posição de atraso em relação aos países europeus e à nossa própria história contemporânea. Eurico Brilhante Dias  no dia em que se assinou o acordo disse na SIC Notícias que este aumento era a primeira grande vitória das Eleições Primárias do Partido Socialista. Como diz o povo, "cada louco com a sua mania". Seja como for, alguns dados concretos faziam falta a tão perspicazes dirigentes que veem gloriosas vitórias no meio do pântano. 




22 setembro 2014

A desigualdade de género no topo dos rendimentos

Como todos os estudos em ciências sociais demonstram, Portugal é uma sociedade profundamente desigual em múltiplos domínios. Um deles foi analisado pelo investigador Frederico Cantante num estudo muito sólido e relevante publicado recentemente no Observatório das Desigualdades. O problema é claro:  "a desigualdade de género é bastante acentuada no acesso aos quantis do topo da distribuição dos ganhos salariais". Isto é, mesmo entre os grupos que ganham salários mais elevados, a diferença entre os homens e as mulheres é abissal. Vejamos alguns exemplos.


Como se percebe, à medida que se sobe na estrutura de distribuição de rendimentos, mais desigual é o acesso de homens e mulheres aos quantis mais bem pagos da população trabalhadora. Nos 10 % com mais rendimento na sociedade, o número de homens é 39 % vezes superior ao números de mulheres. No 1% mais ricos, os homens representam  80 % dos efetivos desse percentil e nos 00,1 % mais ricos a percentagem de diferença é de 90 % vezes mais. O topo de rendimento é habitado esmagadormente por homens.



Já neste gráfico podemos ver como a diferença da amplitude salarial entre homens e mulher aumenta consoante se sobe para o topo hierarquia de rendimentos.


No que respeita ao ganho salarial médio de homens e mulheres nos quantis de topo de rendimentos, constatamos também que quanto maiores são os quantis de rendimento, maior é a desigualdade de média salarial entre homens e mulher. Entre os 1% mais ricos, por exemplo, os homens ganham mais 61,6 % em média que as mulheres. Já entre os 0,1% mais ricos, essa diferença é de 96,4 %.

Esta amostra de dados não dispensa a análise do estudo detalhado, mas ela permite-nos concluir o seguinte: as notícias de que as desigualdades de género no trabalho estão quase erradicadas, são notícias claramente exageradas.

15 setembro 2014

FATMA, o Festival Todos e a vontade de respirar


Sábado, 10h30, no terraço de um prédio em Lisboa no fim da Rua de S. Bento juntavam-se cerca de 50 pessoas para assistir a FATMA, uma peça do criador argelino M´Hamed Bengguettaf interpretado por Sofia de Portugal. Num cenário improvável, o denso e sólido texto do dramaturgo argelino apresenta-nos um monólogo fascinante sobre a liberdade de uma mulher no único dia do mês onde pode ser quem é, falar sobre si e ser protagonista de uma história. Esse dia, imagine-se, é o dia do mês em que FATMA tem direito ao pátio do prédio, onde passa o dia sozinha a lavar e a estender a roupa. Nesse dia FATMA respira. Fala das angústias da sua vida, da condição da mulher argelina, dos silêncios a que é votada a sua existência, dos seus sonhos despedaçados, do passado e do que ficou por cumprir. Sofia de Portugal esteve à altura da riqueza do texto. A sua interpretação foi de tal modo intensa que nos colocou absolutamente absorvidos por uma mulher e uma sociedade que provavelmente poucos na sala conhecíamos. 

A peça foi acompanhada por um pequeno almoço argelino no intervalo e nem o sol da manhã de sábado conseguiu diluir o envolvimento que a peça exigia ao público. Com a personagem mergulhámos no drama do mundo, da impossibilidade de projetar um futuro para tantas mulheres remetidas, como FATMA, à vida dura, monótona e paralisante do trabalho. 

Esta criação do Teatro dos Aloés foi uma das boas surpresas do Festival TODOS. Organizado entre S. Bento, o Poço dos Negros e Santa Catarina, o Festival vai na sua sexta edição e nem os cortes asfixiante no apoio às artes e à cultura no país fazem a organização baixar a exigência do programa. Com teatros, performances, conferências, exposições fotográficas, sessões de leitura, cinema, gastronomia, música e festas, o Festival TODOS combina multiculturalidade social e artística, ligação à história dos lugares onde se insere e uma vontade imensa de ouvir a diversidade de povos que fazem o povo de Lisboa. 

As criações Luís Pavão, Vera Mantero, Svetlana Poliakova, Joana Craveiro, Ben Okri, Patrick Murys, Luís Belo e de tantos e tantas outras mostram-nos uma cidade onde é possível respirar fora das rotinas que tantas vezes nos bloqueiam. Foi também assim no espetáculo de FATMA. Um dia por mês, como ela própria diz, no terraço sente-se leve, como uma pluma. É também assim que festivais destes nos fazem sentir: leves e criativos, para não deixar que estes tempos de obscurantismo nos destruam o que melhor que temos. A capacidade de pensar livremente, a vontade de agir sem medos. 

Para onde caminhamos...

09 setembro 2014

Uma análise e uma crítica séria a Thomas Piketty


Gonçalo Pessa, jovem economista e antigo escriba deste blog, agarrou-se à mais recente obra de Thomas Piketty, O Capital no Século XXI, e desenvolveu uma análise crítica e rigorosa sobre algumas das potencialidades e os limites da obra. Ao contrário da maioria dos países ocidentais, em Portugal a obra tem alimentado pouco debate. Apesar disso destacam-se entre outras, as análises polémicas de João ConstâncioVítor Gaspar, João Carlos EspadaFrancisco LouçãNuno Teles e do bom trabalho de Sérgio Anibal no Público. No texto que aqui reproduzo, Gonçalo Pessa vai ao debate sobre as respostas a três questões fundamentais: como é este livro nos ajuda a pensar as desigualdades que assolam o mundo; como é que a história política e económica do capitalismo moderno está profundamente enraizada no problema da desigualdade de produção e distribuição de recursos; e, por fim, como é que do ponto de vista estratégico se responde politicamente a uma economia absorvida por uma elite que se alimenta das desigualdades a nível global. 

O que há de novo em Thomas Piketty? Por Gonçalo Pessa

05 setembro 2014

Bons Sons: uma forma diferente de ser festival



Como muito bem alertavam os movimentos alterglobais dos anos 90 e 2000, uma das características mais importantes do desenvolvimento do capitalismo na transição no milénio era a mercantilização dos vários domínios do espaço público e da vida das sociedades. Na escola, na rua, na cultura, na produção científica, no Estado e em tantos outros domínios, a pressão da mercantilização dos bens, das pessoas e dos serviços deu um novo fôlego a que os interesses do mercado colonizassem aquilo a que Habermas chamava o “mundo da vida”.

Foi também assim nos festivais de música em Portugal. Praticamente todos os nomes dos festivais passaram a ter os nomes das marcas que os patrocinam. A Optimus e a NOS tomaram o Alive, a Vodafone o Paredes de Coura ou o Primavera Sounds System, a TMN o Sudoeste, a EDP o Cascais Cool Jazz Fest e por aí fora. Mas também nos próprios recintos, os restaurantes são da Pizza Hut ou da Burger King e em todo o lado há material publicitário. E este respeito, não se admira que na generalidade dos festivais o critério de escolha dos artistas seja essencialmente o critério do que o mercado decide que em cada momento as pessoas devem ouvir.

Mas se esta é a tendência hegemónica, vale a pena lembrar que um pouco pelo país fora se vão multiplicando experiências de festivais e iniciativas que escolhem não depender do mercado para ter sucesso. Queria falar-vos de uma delas, o Festival Bons Sons. Acontece de dois em dois anos na aldeia de Cem Soldos em Tomar e toda a aldeia é mobilizada na organização do festival. Há concertos na igreja, na eira, no andro, na praça principal. A população organiza os restaurantes, os espaços e tem as casas abertas. Os lucros revertem para a comunidade e este ano servirão para a construção de residências artísticas e de um lar de idosos. O cartaz percorre a música portuguesa nas suas várias dimensões. Pelo festival já passaram veteranos como o Vitorino, Sérgio Godinho, Fausto, António Chainho ou a Naifa, novos grupos como os PAUS, os Linda Martini, The Legendary Tiger Man, o Noiserv, os Torto ou as Anarchicks, o novo fado de Gisela João ou Ricardo Ribeiro, o rap da Capicua, a mundividência de Terrakota ou Dead Combo, e tantos músicos a solo como o Peixe, Nuno Prata, Norberto Lobo, Filho da Mãe, António Zambujo, Samuel Úria e muitos outros.

A vivência da aldeia e da comunidade, o respeito pela diversidade da música portuguesa contemporânea, a autonomia em relação ao mercado e a ousadia de um cartaz que todos os anos nos mostra músicos novos, conferem ao Bons Sons um lugar único nos festivais portugueses. Espero que o futuro permita manter essa cultura, essa diferença e esse arrojo. 

25 agosto 2014

O perigoso conceito de liberdade de João Carlos Espada




João Carlos Espada decidiu levar as 685 páginas de Thomas Piketty – Capital in the Twenty-First Centery -, para o seu catálogo de “leituras em férias”. Como seria de esperar, não resistiu a escrever hoje no Público algosobre o livro. Quer dizer, sobre o livro em si pouco disse, escreveu apenas que [no livro] “basicamente, é-nos dito que as desigualdades estão a aumentar no Ocidente e que estas devem ser corrigidas”. Esta conclusão leva Carlos Espada a prosar sobre o que considera o dogma fundamental de Piketty e, acrescentaria eu, da generalidade da literatura crítica das desigualdades: “o dogma de que a desigualdade é má”. Ora para Carlos Espada a desigualdade não é má.
Pelo contrário, ela emana de um outro valor filosófico, social e político mais amplo: a liberdade. Diz o cronista que da “liberdade perante a lei – um princípio crucial do Estado de direito – resulta a desigualdade de resultados”. Assim, para ele a desigualdade é algo bom porque é o resultado da liberdade perante a lei e o Estado. Esta argumentação leva-o a questionar no título do artigo: [deve-se] “combater a desigualdade ou combater a pobreza?”.

Para ele a resposta é clara: sendo a desigualdade desejável, devemos apenas combater a pobreza através de mecanismos caritativos. Mas a pergunta que se impõe é outra: será possível combater a pobreza, sem combater as desigualdades? Carlos Espada sabe que não. Apesar da eloquente citação de David Hume, ele sabe tão bem como nós que a pobreza nasce e estrutura-se na desigualdade. Dito de forma simples, só existem pobres e dominados, porque existem ricos dominantes. A pobreza de uma parte considerável da população é condição do enriquecimento acelerado de uma parte mais pequena da sociedade que domina os poderes financeiros e económicos e por isso coloniza o poder político.

Para Carlos Espada a desigualdade é útil porque ela depende da liberdade. Mas poderíamos legitimamente perguntar: que liberdade tem quem não tem recursos para viver? Que liberdade tem quem não tem outra opção que não seja ou trabalhar com salários de miséria ou estar desempregado? Que liberdade tem uma sociedade em que o destino dos seus cidadãos, mesmo que teoricamente em igualdade perante a lei, está fortemente condicionado pela sua origem económica e social? Terá a mesma liberdade perante a lei e perante a vida um filho de uma família pobre nos subúrbios de uma grande cidade ou um filho de uma família poderosa em Portugal?

Carlos Espada sabe que não. E sabe também que no final do século XVIII a efetivação do princípio filosófico da liberdade foi complementada com o princípio político da igualdade. Porque por muita conversa de circunstância, não é preciso ser um professor universitário para se perceber que a igualdade e a liberdade são conceitos indissociáveis. Um depende do outro. O contrário disso já se sabe o que é. Basta olhar à nossa volta e ver a barbárie do nosso tempo. 

18 agosto 2014

A juventude e o abismo do futuro



Os tempos que vivemos são negros e não afiguram qualquer sinal de retoma. Pelo contrário: tudo indica que o nosso futuro imediato será uma acelerada corrida para o abismo. O espírito da austeridade infiltrou-se em todos os domínios das políticas sociais, económicas e culturais e o seu resultado é um país à beira do desastre coletivo. Com a evidente exceção dos mais ricos entre os mais ricos, que viram os seus rendimentos aumentar, toda a sociedade ficou mais pobre nestes anos de sacrifícios. Mas no caso dos jovens essa realidade tem ganho contornos assustadores. Há mais estudantes expulsos das universidades por razões económicas, o desemprego jovem e de jovens com formação superior não pára de aumentar, a emigração forçada já constitui um marco de uma geração e a precariedade tornou-se um modo de vida imposto por esta agenda ideológica de radical ataque sobre a sociedade.
O governo e os seus papagaios-comentadores têm-se esforçado por criar na sociedade a ideia de que os sacrifícios valeram a pena e que finalmente o país caminha para uma sustentável perspetiva de crescimento e progresso. O esforço de todos esses ilustres burocratas é meritório, mas todos os dados indicam o contrário. No caso da juventude, os dados divulgados pelo INE esta semana são muito claros: um em cada quatro jovens estão em risco de pobreza e vivem em famílias pobres; temos menos 500 mil jovens no país desde 2001; 41,6 % dos jovens entre 25 e 29 anos ainda vivem em casa dos pais; o desemprego jovem representa o dobro do desemprego geral, cifrando-se em 26,3 %; a média salarial dos jovens empregados situa-se nos míseros 607 euros.
Os dados são terríveis para o nosso futuro mas, como se costuma dizer, a procissão ainda vai no adro. Perante esta realidade, um governo decente investiria mais na educação dos seus jovens e na criação de emprego qualificado e com direitos que permitisse que estes tivessem capacidade e autonomia para decidir viver em Portugal. Mas as notícias desta semana são outro desastre desse ponto de vista: o governo vai insistir na razia, cortando mais 14 milhões de euros às universidades e politécnicos.

24 julho 2014

O BES entre a política e os negócios

Costuma-se dizer que há imagens que valem por mil palavras. Neste caso, há caras que valem por mim palavras. Nesta imagem, mostram-se os rostos dos antigos Ministros e Secretários de Estado que passaram pelo BES desde o 25 de Abril. Os dados aqui trazidos pelo Expresso constam do livro "Os Burgueses" da autoria de Francisco Louçã, João Teixeira Lopes e Jorge Costa, com a colaboração na investigação de Adriano Campos e Nuno Moniz. É um levantamento de dados importantíssimo e que não pode deixar ninguém indiferente. 


22 julho 2014

Onde está o rigor, quando se considera que as temáticas das desigualdades e das imigrações já foram esgotadas?

No momento em que cientistas, académicos, Reitores e responsáveis de várias áreas intensificam as críticas à avaliação dos Centros de Investigação, retomo uma carta aberta assinada por algumas as principais referências na afirmação da sociologia em Portugal a seguir ao 25 de Abril. Uma carta que me honra porque vai ao combate. Assinaria sem hesitar. 

"Senhor Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia:

Numa conjuntura marcada por reiteradas preocupações, dos mais diversos setores disciplinares, institucionais e ideológicos, sobre cortes drásticos no financiamento público de I&D, associados a tropelias sucessivas através de concursos para investigadores e para atribuição de bolsas em que, sistematicamente, as ciências sociais têm sido particularmente maltratadas, esperar-se-ia, por parte da FCT, uma correção dos erros e uma preocupação acrescida com a qualidade dos processos. Afinal, a incorporação dos erros no aperfeiçoamento dos caminhos possíveis, através do debate crítico, coletivo e organizado, é uma das características que liberta a ciência das armadilhas da arbitrariedade.

Assim, uma política científica sustentada exige respeito pelas regras mais elementares dos sistemas de avaliação: rigor e isenção. Ora, os signatários desta carta aberta, provenientes de diversas instituições de ensino superior, consideram que tais requisitos estiveram flagrantemente ausentes no recente processo de avaliação das unidades de investigação do sistema científico nacional, nomeadamente ao excluírem da segunda fase uma das unidades de I&D de referência nas ciências sociais em Portugal: o CIES (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia) do ISCTE-IUL (ver resultados da avaliação aqui: http://www.cies.iscte.pt/np4/newsId=841&fileName=Posi__o_do_Cies_sobre_o_processo_de_aval.pdf

Treze indícios da coerência de Frankie Chavez


Haverá poucos instrumentos musicais tão famosos como as guitarras. Talvez por isso seja tão difícil alguém destacar-se não como um bom guitarrista, mas como um guitarrista realmente original e que introduz algo novo além de uma boa noção técnica. Creio que Frankie Chavez é bom exemplo disso: combina a noção técnica dos melhores guitarristas mas apresenta-nos uma sonoridade suficientemente original para poder ser considerado um dos melhores guitarristas portugueses da atualidade. 

Este seu terceiro disco, depois do homónimo "Frankie Chavez" e do original "Family Tree", combina os bons vícios do formato "one man band" que seguiu até este álbum e alimenta uma maturidade no seu percurso que lhe permite entrar em incursões mais pesadas e rápidas, sem perder a essência de uma música fluída que trespassa a influência country, blues, blues-rock, rock, música tradicional portuguesa e outras coisas difíceis de encaixar. Vale a pena investir nas treze músicas em que ele se concentrou nos últimos anos. Sabem muito bem e indiciam uma carreira sólida e sobretudo muito coerente. 




15 julho 2014

É possível defender o Estado-social aplicando o Tratado Orçamental?

Quem ler o Tratado Orçamental percebe a avalanche que vai cair sobre Portugal. PS, PSD e CDS diziam-nos há três anos que Portugal tinha de assinar o Memorando da Troika porque a dívida e o défice eram insustentáveis. Nos três anos seguintes à assinatura, a dívida aumentou 40 mil milhões de euros. Mas longe de fazerem uma mea culpa, os três partidos assinaram imediatamente o chamado Tratado Orçamental. Esse Tratado que agora entra em funções obriga Portugal a reduzir a sua dívida para 60 % do PIB e o seu défice estrutural para 0,5 %. E deve fazê-lo sob orientação de políticas de redução das funções e do papel do Estado pois qualquer investimento em políticas contra-cíclicas que permitam estimular o consumo, criar emprego e proteger as pessoas é proibido e previamente fiscalizado pela Europa.

A dívida pública portuguesa estava no primeiro trimestre de 2014 em 132,4 % do PIB e o défice em 2013 estava nos 5 %. Para cumprir este plano de loucos Portugal tinha de conseguir reduzir 72,4 % de dívida, isto é, segundo os valores do PIB de 2013, uma modéstia quantia de quase 120 mil milhões de euros. E ao mesmo tempo não fazer investimento público, implementar mais austeridade e continuar a desmantelar o Estado-social. Se Portugal não cumprir estas metas (como sabemos que não vai cumprir), o Tribunal Europeu de Justiça passa a ter poder de nos imputar uma multa ou uma sanção pecuniária compensatória. Portugal passa a ser obrigado a cumprir uma orientação jurídica (e política) da instituições europeia que caso não cumpra (como se em pudesse sequer ser cumprido) terá uma multa direita que pode chegar a quase 166 milhões de euros, 0,1 % do PIB.

Na política portuguesa há quem pense que é possível ter uma política de esquerda que salve o país da miséria e defenda o Estado-social mas que ao mesmo tempo cumpra as obrigações do Tratado Orçamental e a exigência de uma política de austeridade previamente fiscalizada pela Europa. Na política, como na vida, há quem acredita em muitas ilusões, quimeras e fantasias. Mas neste caso deviam moderar a irresponsabilidade: estão a brincar com a vida de um país.

10 julho 2014

Os mitos da OCDE não resistem a uma análise objetiva


A OCDE esteve em Lisboa para uma cerimónia de propaganda às políticas de austeridade em Portugal e na Europa. Angel Gurría, o seu secretário-geral, encontrou-se com Passos Coelho para a apresentação pública de um relatório que o próprio governo encomendou sobre o sucesso das suas reformas e as recomendações da OCDE sobre a política económica, fiscal, laboral e educativas para os próximos anos. Nem a propósito, o Inflexão têm-se dedicado desde Janeiro deste ano a uma análise detalhada dessas problemáticas. Olhando para os dados, a conclusão parece simples: os mitos da OCDE não resistem a uma análise objetiva. 

O relatório é extenso mas dele gostaria de destacar seis temas cuja importância para sociedade e para a economia portuguesa merece o nosso escrutínio crítico. São eles as desigualdades sociais, o  problema do desemprego, o trabalho, as finanças, a educação e, finalmente, a ciência. Estes são alguns dos assuntos mais tratados no relatório e mais decisivos para a sociedade portuguesa. Para os analisar com seriedade exige-se um olhar rigoroso e objetivo e não meramente um panfleto ideológico mascarado de relatório técnico. Caso a caso, vamos ao essencial. 

04 julho 2014

Big Brother is still watching you


Há notícias que nos chegam e se perdem na espuma dos dias e na nebulosa informativa que nos atinge diariamente nas redes sociais. Mas há notícias que importa não esquecer e sobretudo que importa inscrever nos debates do nosso tempo. Esta semana tivemos uma dessas notícias: Edward Snowden divulgou mais um documento secreto onde se lê que a NSA estava autorizada a vigiar 193 países do mundo. De fora ficaram apenas o Reino Unido, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia que têm um acordo de não-espionagem com os EUA, o Five Eyes.

O documento divulgado mostra que os EUA podiam intercetar comunicações e vigiar cidadãos e governos de todos os países do mundo. A justificação é simples: todos são potencialmente suspeitos de pôr em causa a segurança nacional americana e por isso todos devem ser permanentemente vigiados.