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23 janeiro 2014

Jovens Diplomados em Portugal: emprego, desemprego e trabalho qualificado (parte 1)

Portugal fez um esforço enorme de qualificação da sua população nas últimas décadas. Hoje continuamos no geral a ter uma sociedade pouco qualificada e na cauda da Europa mas que fez enormes progressos. Temos mais jovens qualificados mas que ainda são muito menos dos que o universo de jovens em idade de estudar no Ensino Superior. Mas para além da questão da democratização do acesso e das expectativas sobre ao Ensino Superior, nestes tempos de transformação acelerada vale a pena pensar o que está a acontecer aos jovens diplomados em Portugal. Os dados oficiais escondem uma parte considerável da realidade. Os dados do antigo GPEARI e da actual DGEEC que as universidades divulgam, apenas contabilizam no "desemprego dos diplomados" os jovens que se encontram inscritos nos centros de emprego. Como se percebe, estes são muito menos que o universo geral de diplomados realmente em situação de desemprego. E de facto, das catorze universidades públicas portuguesas apenas sete delas aplicam inquéritos próprios sobre o percurso dos seus diplomados. Vejamos desses inquéritos, a título de exemplo, o que tem acontecido na Universidade Nova de Lisboa e na Universidade de Évora ao nível do emprego, desemprego e adequação do trabalho à formação nos últimos anos.

Fig1: Situação perante a atividade dos licenciados da UNL
Fonte: OBIPNOVA

21 janeiro 2014

Portugal: Quem tem muito ainda mais terá (1976-2005)

A Oxfam publicou ontem um relatório sobre desigualdade económica e a acumulação de riqueza.

Além de algumas considerações interessantes ao nível global tais como metade da riqueza mundial estar na posse de apenas 1% da sua população ou que as 85 pessoas mais ricas do mundo têm uma fortuna igual à da metade da população mundial mais pobre.

Além destas considerações, o relatório apresenta algumas estimativas sobre valores concretos, nomeadamente a fortuna dos 1% mais ricos (110 triliões de dólares), a fortuna das 10 pessoas mais ricas da Europa (217 biliões de euros, mais que as medidas de estímulo económico entre 2008 e 2010 que totalizaram 200 biliões de euros), entre outras.

Um livro essencial sobre a desigualdade no século XXI



Thomas Piketty publicou há poucos meses um livro essencial sobre o capital no século XXI. Vou voltar a alguns dos temas do livro, porque ele suscita um debate fascinante sobre o conceito de capital e, sobretudo sobre as medidas da desigualdade e as formas de a combater.

No gráfico seguinte está uma das conclusões do autor: a concentração de riqueza (e de poder) do decil superior da distribuição de rendimentos, ou dos 10% mais ricos, aumentou significativamente durante as últimas três décadas e continua a aumentar de forma acelerada. Este é um dos factores mais importantes para perceber a economia e a política dos dias de hoje.

17 janeiro 2014

Saúde para dar e vender


Ficamos a saber esta semana que a Espírito Santo Saúde vai dar entrada na bolsa. O grupo liderado por Isabel Vaz – conhecida pelo seu momentâneo lapso de honestidade ao declarar que mais lucrativo que a saúde só mesmo o sector das armas – ocupa actualmente a segunda posição no mercado privado da saúde em Portugal (excepto seguros). Este movimento não é um pormenor financeiro, pela primeira vez um hospital público, o Hospital de Loures, entra na esfera do mercado de capitais em Portugal. Mesmo desconhecendo os potenciais interessados, este processo revela a consolidação do sector privado de saúde, que segue imune à crise deste último quinquénio, com uma faturação total a ultrapassar os mil e duzentos milhões de euros em 2012.

729 bolsas de doutoramento, 233 pós docs? Isso é tão 1999!

Foram esta semana finalmente publicados os resultados do concurso a bolsas individuais de doutoramento e pós-doutoramento. Este concurso foi pautado por atrasos da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), e pelo resultado já previamente anunciado de um corte brutal no número de bolsas atribuídas. O atraso na abertura do concurso de bolsas e da divulgação do resultado do mesmo deixou os candidatos a bolseiros, as universidades e centro de investigação numa situação caótica ao longo de todo o primeiro semestre.

Os resultados são dramáticos. O total de bolsas individuais de doutoramento atribuídas foram 298 e de pós-doutoramento 233. Isso significa uma proporção de aprovação das bolsas na ordem dos 10% para os doutoramentos e de pouco menos de 9% para os pós doutoramentos. Esta proporção não tem uma distribuição equitativa, nas Ciências Sociais e Humanas, por exemplo, a percentagem de aprovação rondou os 5%.

Até o Fórum Económico Mundial?

O Fórum Económico Mundial nunca foi muito bem frequentado. Por lá vai estando sentada uma parte considerável da elite económica que governa o mundo. A sociedade civil, as associações e os movimentos normalmente ficam à porta, bloqueados por um cordão policial. Mas vale a pensa ler o que eles escreverem, vale a pena saber o que eles pensam, vale a pena estudar o que eles concluem sobre o que está a acontecer ao mundo. Recentemente lançaram o seu relatório anual Global Risks 2014 e os resultados, ainda que não sejam uma novidade, são profundamente ilustrativos de como a dureza da crise, das desigualdades e da destruição das economias é de tal ordem que é o próprio Fórum Económico Mundial que o coloca como centro de reflexão.

Fig 1: Ten Global Risks of Highest Concern in 2014, pp.9

16 janeiro 2014

Os bons negócios de sempre, ou a mudança estrutural na economia portuguesa





Passou despercebida a publicação das listagens das maiores empresas portuguesas e o que elas revelam sobre a estrutura da economia. Não devia. Porque mostra o que há de fantasia no discurso das “mudanças estruturais”.
Tomemos o exemplo de uma das revistas que produz essa série com maior continuidade, a Exame. Em finais de 2013, publicou os dados sobre as 500 maiores empresas atuando em Portugal, referentes ao ano anterior (o que pode ser consultado aqui, se se registar).
Os dados são esclarecedores:
1) 78 das 500 maiores empresas estão em quatro grandes sectores: são 27 na distribuição de combustíveis, 28 na água, eletricidade e gás, 18 na distribuição alimentar e 5 nas telecomunicações.
2) O maior volume de negócios é o da distribuição de combustíveis (19,7 mil milhões), seguido dos sectores energéticos (17,8), da distribuição alimentar (11,9) e das telecomunicações (5,9).

15 janeiro 2014

Mexe-se onde não se deve e não se mexe onde se devia mexer

A educação e em particular a escola pública enquanto configuração institucional hegemónica nas sociedades ocidentais contemporâneas são alvo de uma enorme e permanente atenção mediática e de um ininterrupto debate público em todas as esferas da sociedade. Mas demasiadas vezes, a agenda ideológica de cada momento político esconde do debate público uma leitura mais longa, ampla e contextualizada das questões da educação. Talvez por isso, as mudanças políticas que agora se propõe no Orçamento de Estado e sobretudo no Guião da Reforma do Estado (e outras que se foram desenhando nos últimos anos) sejam omissas sobre as grandes questões de fundo sobre a evolução do sistema educativo português.

Deixar o debate pela rama produz dois efeitos politicamente úteis para quem executa a agenda política: por um lado, oculta a evolução que a sociedade portuguesa conseguiu conquistar nos domínios da qualificação nos últimos anos; e, por outro lado, reproduz, acentua e naturaliza os piores indicadores que persistem na relação entre escola e as desigualdades. Vejamos curtos exemplos dos dois efeitos.

14 janeiro 2014

Jovem Emigração Qualificada para França: Um regresso improvável

Terminei em finais de 2013 um estudo exploratório sobre a jovem emigração portuguesa para França tendo obtido uma amostra de 113 inquiridos entre os 20 e os 35 anos, com pelo menos a licenciatura e que abandonaram Portugal a partir de 2008. Ao contrário de vagas anteriores, estes jovens não acalentam “a fantasia do regresso”, seguindo a expressão do realizador Rubem Alves.

Na verdade, os projetos e as decisões comportam sempre uma dose de reflexividade face às condições objetivas de existência e uma dose de cálculo quanto aos futuros possíveis. Ora, para estes jovens o regresso não é uma hipótese a curto prazo. Compreendem-se bem as razões: por um lado, a decisão de emigrar é recente e encontram-se em pleno processo de inserção no país de destino, com forte investimento na preparação de uma vida nova; por outro lado, tal processo parece corresponder aos seus objetivos, na medida em que a França se afigura um país que reconhece as suas qualificações e que, mais ainda, acresce qualificação à qualificação (carreiras estáveis, protegidas, bem remuneradas, com francas possibilidades de progressão). Finalmente, a dura situação portuguesa, sem vislumbre de melhoria próxima, obriga ao refrear das expetativas.

13 janeiro 2014

O que a evolução da taxa de lucro nos ensina sobre a política de hoje e de amanhã

Este texto trata dos dois enigmas seguintes: será que a taxa de lucro tem subido consistentemente ao longo das últimas décadas, como afirmam quase todos os economistas? E, se é assim, porque é que a burguesia intensifica a sua luta de classes contra os salários e as pensões, como se não houvesse amanhã?

A resposta é que, ao contrário das aparências estatísticas, a taxa de lucro tem decrescido ao longo dos últimos quase quarenta anos e, para corrigir essa queda tendencial, o processo de acumulação de capital exige uma transformação estrutural da relações de forças entre as classes. Creio que este é o elemento mais importante para compreender a dinâmica da luta social e política do nosso tempo. Como diz com arrogância Warren Buffet, o segundo homem mais rico do planeta, “existe mesmo luta de classes e a minha classe está a ganhar”.