20 janeiro 2014

EUA: recuperação económica de quem?

O NYtimes publicou uma interessante compilação de gráficos que resumem o ano de 2013. O primeiro explica quem ganhou e perdeu com a crise desde 2007 e os resultados, se bem que não sejam surpreendentes, são muito claros sobre o que é a "recuperação económica" na América do Norte.


Desde 2007, e apesar de inicialmente terem sofrido perdas, os lucros das empresas e o valor das ações em bolsa cresceram mais de 40%. Por outro lado, o nível de emprego reduziu ligeiramente nestes 6 anos e os rendimentos só cresceram cerca de 4%. Os ganhos das empresas americanas atingiram o valor recorde de 2.1 milhões de biliões de dólares (trillion). Wallstreet ganha à Mainstreet em todos os campeonatos.

19 janeiro 2014

A grande fraude, parte I: o desemprego está mesmo a diminuir?

Em Junho de 2011, mês do início do programa da Troika, a taxa de desemprego em Portugal era de 12,1%. Hoje, está nos 15,6%. A relação entre austeridade e desemprego é indiscutível e opera-se por diferentes canais: a redução salarial e o aumento dos impostos reduzem o poder de compra e, consequentemente as perspetivas de vendas; o aumento dos impostos indiretos, como o IVA, sobrecarrega e coloca em causa a viabilidade de setores importantes da economia; a desregulamentação do mercado de trabalho fragiliza os vínculos laborais, tornando-os mais permeáveis à conjuntura económica.



A questão que se coloca é: pode a mesma austeridade responsável pelo aumento sem precedentes do desemprego em Portugal estar agora contribuir a sua redução? De que forma?

Para responder a estas (e outras) questões importa, antes de mais, perceber quais as limitações implícitas na forma de cálculo da taxa de desemprego – o que é que ela esconde – e, sobretudo, que tipo de empregos estão a ser criados no país. Só assim saberemos se a redução que a taxa apresenta é um sinal do “sucesso” da estratégia austeritária, e a quem interessa o sucesso.

A tartaruga que quer ir mais depressa do que a lebre


Uma empresa algo misteriosa, a Tortus Capital, criada em 2011 em Nova Iorque e dirigida por David Salanic (MBA por Harvard em 2007), que fez anteriormente carreira nas fusões e aquisições de um agência financeira e num hedge fund, lançou recentemente uma proposta de restruturação da dívida portuguesa.

A proposta foi suficientemente chocante para merecer a atenção do Financial Times, onde Dan McCrum escreveu sobre os “canalhas do short selling” que atacam de novo, e do Expresso, que publicou uma entrevista de Salanic (ver o texto completo da entrevista, conduzida por Jorge Nascimento Rodrigues). De facto, a Tortus especializa-se em short selling (uma forma de intervenção no mercado cuja proibição tinha sido anunciada depois da crise de 2007, ou seja, a venda de títulos cuja propriedade ainda não foi adquirida pelo vendedor, que espera comprá-los depois a preço mais baixo do que o que recebeu quando vendeu ... o que não era seu) e está por isso a especular contra a dívida portuguesa.


17 janeiro 2014

A Irlanda é a prova de que a austeridade resulta? (parte 2)

No post anterior foi contextualizada a situação em que a Irlanda recorreu ao programa de “ajuda” externa. Agora será analisado este programa, para a seguir responder à questão de fundo, ou seja, se a austeridade está a resultar na Irlanda.

O plano de “resgate”

Um estudo feito pela Attac irlandesa em conjunto com a Attac austríaca demonstra de forma clara que, enquanto o empréstimo total dado pelos credores institucionais na sequência do programa de “ajuda” externa foi de 67.500 milhões de euros, o valor gasto com os bancos foi de 89.500 milhões de euros. Todos os credores, mesmo os que não estavam cobertos por garantias do estado (caso dos hedge funds) foram reembolsados, ao passo que o fundo nacional de pensões, que visa garantir o futuro das reformas das irlandesas e dos irlandeses, foi “saqueado”.

Saúde para dar e vender


Ficamos a saber esta semana que a Espírito Santo Saúde vai dar entrada na bolsa. O grupo liderado por Isabel Vaz – conhecida pelo seu momentâneo lapso de honestidade ao declarar que mais lucrativo que a saúde só mesmo o sector das armas – ocupa actualmente a segunda posição no mercado privado da saúde em Portugal (excepto seguros). Este movimento não é um pormenor financeiro, pela primeira vez um hospital público, o Hospital de Loures, entra na esfera do mercado de capitais em Portugal. Mesmo desconhecendo os potenciais interessados, este processo revela a consolidação do sector privado de saúde, que segue imune à crise deste último quinquénio, com uma faturação total a ultrapassar os mil e duzentos milhões de euros em 2012.

729 bolsas de doutoramento, 233 pós docs? Isso é tão 1999!

Foram esta semana finalmente publicados os resultados do concurso a bolsas individuais de doutoramento e pós-doutoramento. Este concurso foi pautado por atrasos da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), e pelo resultado já previamente anunciado de um corte brutal no número de bolsas atribuídas. O atraso na abertura do concurso de bolsas e da divulgação do resultado do mesmo deixou os candidatos a bolseiros, as universidades e centro de investigação numa situação caótica ao longo de todo o primeiro semestre.

Os resultados são dramáticos. O total de bolsas individuais de doutoramento atribuídas foram 298 e de pós-doutoramento 233. Isso significa uma proporção de aprovação das bolsas na ordem dos 10% para os doutoramentos e de pouco menos de 9% para os pós doutoramentos. Esta proporção não tem uma distribuição equitativa, nas Ciências Sociais e Humanas, por exemplo, a percentagem de aprovação rondou os 5%.

Até o Fórum Económico Mundial?

O Fórum Económico Mundial nunca foi muito bem frequentado. Por lá vai estando sentada uma parte considerável da elite económica que governa o mundo. A sociedade civil, as associações e os movimentos normalmente ficam à porta, bloqueados por um cordão policial. Mas vale a pensa ler o que eles escreverem, vale a pena saber o que eles pensam, vale a pena estudar o que eles concluem sobre o que está a acontecer ao mundo. Recentemente lançaram o seu relatório anual Global Risks 2014 e os resultados, ainda que não sejam uma novidade, são profundamente ilustrativos de como a dureza da crise, das desigualdades e da destruição das economias é de tal ordem que é o próprio Fórum Económico Mundial que o coloca como centro de reflexão.

Fig 1: Ten Global Risks of Highest Concern in 2014, pp.9

16 janeiro 2014

Documentário: GOLDMAN SACHS - O BANCO QUE DIRIGE O MUNDO


A Goldman Sachs tornou-se um supra-poder mundial. Um banco “demasiado grande para cair”, que criou e vendeu activos tóxicos para enganar propositadamente os seus clientes e construir um império premiando dirigentes políticos que atuam ao seu favor. Um banco que manda em estados e governos, entre os quais o do nosso país.

José Luís Arnaut, antigo braço direito de Durão Barroso e cujo escritório foi um dos intervenientes no processo de privatização da REN, ANA e CTTs, foi a última aquisição política portuguesa da Goldman Sachs. António Borges, nomeado por Pedro Passos Coelho para negociar com a Troika as privatizações, ocupara há vários anos uma posição importante no banco. O documentário que segue desvenda os mecanismos da Goldman Sachs para dirigir o mundo.


Sindicalismo blindado?

Sempre que oiço algum comentador, patrão ou político de direita criticar a falta de democracia nos sindicatos fico imediatamente ruborizado porque sei que, em muitos casos, essa crítica é totalmente válida. Sei bem que é usada como arma de arremesso para desvalorizar e ridicularizar o movimento sindical, mas o que é facto é que a muitos sindicatos tem faltado democracia interna e isso prejudica a sua capacidade de ação e a sua implantação.

Proponho-vos um exercício de análise dos estatutos de um sindicato para verificarmos se de facto é necessário um movimento exigente que traga práticas mais democráticas para dentro dos sindicatos. Com uma simples pesquisa no Boletim do Trabalho e Emprego do Ministério do Trabalho encontramos dezenas de Estatutos de sindicatos onde estão patentes os modos de organização interna.

Nos estatutos do SITE-Norte, por exemplo, encontramos vários pontos positivos, como a possibilidade de filiação por trabalhadores precários e uma definição clara de democracia sindical e de sindicalismo de massas assentes na audição dos trabalhadores e na sua participação ativa nas reivindicações e objetivos programáticos. O sindicato reconhece ainda o direito de tendência, reconhecendo na sua natureza unitária, a presença de várias correntes de opinião.

No entanto, depois há alguns pontos menos positivos.

Os bons negócios de sempre, ou a mudança estrutural na economia portuguesa





Passou despercebida a publicação das listagens das maiores empresas portuguesas e o que elas revelam sobre a estrutura da economia. Não devia. Porque mostra o que há de fantasia no discurso das “mudanças estruturais”.
Tomemos o exemplo de uma das revistas que produz essa série com maior continuidade, a Exame. Em finais de 2013, publicou os dados sobre as 500 maiores empresas atuando em Portugal, referentes ao ano anterior (o que pode ser consultado aqui, se se registar).
Os dados são esclarecedores:
1) 78 das 500 maiores empresas estão em quatro grandes sectores: são 27 na distribuição de combustíveis, 28 na água, eletricidade e gás, 18 na distribuição alimentar e 5 nas telecomunicações.
2) O maior volume de negócios é o da distribuição de combustíveis (19,7 mil milhões), seguido dos sectores energéticos (17,8), da distribuição alimentar (11,9) e das telecomunicações (5,9).