22 janeiro 2014

A FCT vicia o "mérito"

Hoje decidi demitir-me de membro do painel de avaliação de Sociologia da FCT, no seguimento de uma tomada de posição coletiva da Associação Portuguesa de Sociologia e do júri das candidaturas nesta área.

Pescadinha de rabo na boca

Não há nada a acrescentar, o João Ramos de Almeida conta a história toda aqui.

É simples e elegante: os prejuízos dos bancos são transformados em créditos fiscais ao longo dos próximos doze anos e esses créditos são declarados dívida do Estado aos bancos. Aumenta o valor contabilístico do défice, mas protege os balanços dos bancos, que passam a ter como activos ... a parte dos prejuízos que o Estado lhes vai pagar.

Lembra-se do início? Ao princípio, eram prejuízos dos bancos. Acabam em activos dos bancos e em dívida do Estado aos bancos. Percebeu como isto funciona?

21 janeiro 2014

Portugal: Quem tem muito ainda mais terá (1976-2005)

A Oxfam publicou ontem um relatório sobre desigualdade económica e a acumulação de riqueza.

Além de algumas considerações interessantes ao nível global tais como metade da riqueza mundial estar na posse de apenas 1% da sua população ou que as 85 pessoas mais ricas do mundo têm uma fortuna igual à da metade da população mundial mais pobre.

Além destas considerações, o relatório apresenta algumas estimativas sobre valores concretos, nomeadamente a fortuna dos 1% mais ricos (110 triliões de dólares), a fortuna das 10 pessoas mais ricas da Europa (217 biliões de euros, mais que as medidas de estímulo económico entre 2008 e 2010 que totalizaram 200 biliões de euros), entre outras.

Um livro essencial sobre a desigualdade no século XXI



Thomas Piketty publicou há poucos meses um livro essencial sobre o capital no século XXI. Vou voltar a alguns dos temas do livro, porque ele suscita um debate fascinante sobre o conceito de capital e, sobretudo sobre as medidas da desigualdade e as formas de a combater.

No gráfico seguinte está uma das conclusões do autor: a concentração de riqueza (e de poder) do decil superior da distribuição de rendimentos, ou dos 10% mais ricos, aumentou significativamente durante as últimas três décadas e continua a aumentar de forma acelerada. Este é um dos factores mais importantes para perceber a economia e a política dos dias de hoje.

20 janeiro 2014

EUA: recuperação económica de quem?

O NYtimes publicou uma interessante compilação de gráficos que resumem o ano de 2013. O primeiro explica quem ganhou e perdeu com a crise desde 2007 e os resultados, se bem que não sejam surpreendentes, são muito claros sobre o que é a "recuperação económica" na América do Norte.


Desde 2007, e apesar de inicialmente terem sofrido perdas, os lucros das empresas e o valor das ações em bolsa cresceram mais de 40%. Por outro lado, o nível de emprego reduziu ligeiramente nestes 6 anos e os rendimentos só cresceram cerca de 4%. Os ganhos das empresas americanas atingiram o valor recorde de 2.1 milhões de biliões de dólares (trillion). Wallstreet ganha à Mainstreet em todos os campeonatos.

19 janeiro 2014

A grande fraude, parte I: o desemprego está mesmo a diminuir?

Em Junho de 2011, mês do início do programa da Troika, a taxa de desemprego em Portugal era de 12,1%. Hoje, está nos 15,6%. A relação entre austeridade e desemprego é indiscutível e opera-se por diferentes canais: a redução salarial e o aumento dos impostos reduzem o poder de compra e, consequentemente as perspetivas de vendas; o aumento dos impostos indiretos, como o IVA, sobrecarrega e coloca em causa a viabilidade de setores importantes da economia; a desregulamentação do mercado de trabalho fragiliza os vínculos laborais, tornando-os mais permeáveis à conjuntura económica.



A questão que se coloca é: pode a mesma austeridade responsável pelo aumento sem precedentes do desemprego em Portugal estar agora contribuir a sua redução? De que forma?

Para responder a estas (e outras) questões importa, antes de mais, perceber quais as limitações implícitas na forma de cálculo da taxa de desemprego – o que é que ela esconde – e, sobretudo, que tipo de empregos estão a ser criados no país. Só assim saberemos se a redução que a taxa apresenta é um sinal do “sucesso” da estratégia austeritária, e a quem interessa o sucesso.

A tartaruga que quer ir mais depressa do que a lebre


Uma empresa algo misteriosa, a Tortus Capital, criada em 2011 em Nova Iorque e dirigida por David Salanic (MBA por Harvard em 2007), que fez anteriormente carreira nas fusões e aquisições de um agência financeira e num hedge fund, lançou recentemente uma proposta de restruturação da dívida portuguesa.

A proposta foi suficientemente chocante para merecer a atenção do Financial Times, onde Dan McCrum escreveu sobre os “canalhas do short selling” que atacam de novo, e do Expresso, que publicou uma entrevista de Salanic (ver o texto completo da entrevista, conduzida por Jorge Nascimento Rodrigues). De facto, a Tortus especializa-se em short selling (uma forma de intervenção no mercado cuja proibição tinha sido anunciada depois da crise de 2007, ou seja, a venda de títulos cuja propriedade ainda não foi adquirida pelo vendedor, que espera comprá-los depois a preço mais baixo do que o que recebeu quando vendeu ... o que não era seu) e está por isso a especular contra a dívida portuguesa.


17 janeiro 2014

A Irlanda é a prova de que a austeridade resulta? (parte 2)

No post anterior foi contextualizada a situação em que a Irlanda recorreu ao programa de “ajuda” externa. Agora será analisado este programa, para a seguir responder à questão de fundo, ou seja, se a austeridade está a resultar na Irlanda.

O plano de “resgate”

Um estudo feito pela Attac irlandesa em conjunto com a Attac austríaca demonstra de forma clara que, enquanto o empréstimo total dado pelos credores institucionais na sequência do programa de “ajuda” externa foi de 67.500 milhões de euros, o valor gasto com os bancos foi de 89.500 milhões de euros. Todos os credores, mesmo os que não estavam cobertos por garantias do estado (caso dos hedge funds) foram reembolsados, ao passo que o fundo nacional de pensões, que visa garantir o futuro das reformas das irlandesas e dos irlandeses, foi “saqueado”.

Saúde para dar e vender


Ficamos a saber esta semana que a Espírito Santo Saúde vai dar entrada na bolsa. O grupo liderado por Isabel Vaz – conhecida pelo seu momentâneo lapso de honestidade ao declarar que mais lucrativo que a saúde só mesmo o sector das armas – ocupa actualmente a segunda posição no mercado privado da saúde em Portugal (excepto seguros). Este movimento não é um pormenor financeiro, pela primeira vez um hospital público, o Hospital de Loures, entra na esfera do mercado de capitais em Portugal. Mesmo desconhecendo os potenciais interessados, este processo revela a consolidação do sector privado de saúde, que segue imune à crise deste último quinquénio, com uma faturação total a ultrapassar os mil e duzentos milhões de euros em 2012.

729 bolsas de doutoramento, 233 pós docs? Isso é tão 1999!

Foram esta semana finalmente publicados os resultados do concurso a bolsas individuais de doutoramento e pós-doutoramento. Este concurso foi pautado por atrasos da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), e pelo resultado já previamente anunciado de um corte brutal no número de bolsas atribuídas. O atraso na abertura do concurso de bolsas e da divulgação do resultado do mesmo deixou os candidatos a bolseiros, as universidades e centro de investigação numa situação caótica ao longo de todo o primeiro semestre.

Os resultados são dramáticos. O total de bolsas individuais de doutoramento atribuídas foram 298 e de pós-doutoramento 233. Isso significa uma proporção de aprovação das bolsas na ordem dos 10% para os doutoramentos e de pouco menos de 9% para os pós doutoramentos. Esta proporção não tem uma distribuição equitativa, nas Ciências Sociais e Humanas, por exemplo, a percentagem de aprovação rondou os 5%.