O número é este: o défice terá sido (dados provisórios) de 7151,5 milhões, menos 1748,5 do que o estava previsto (5,9% do PIB) e, portanto, abaixo do limite imposto pela troika (5,5% na última versão, na primeira era de 3%, o desvio é de cerca de 3500 milhões de euros).
A demagogia é esta: está tudo a correr bem.
A realidade é esta: este valor foi obtido com enorme aumento de impostos (mais 35,5% de IRS) e com receitas irrepetíveis (1253 milhões do perdão fiscal e 400 milhões da ANA).
O presente é este: neste ano, o défice terá de baixar mais 1700 milhões (e o que era irrepetível não se repete).
O futuro é este: o Tratado Orçamental prevê cortes de mais de cinco mil milhões, em cima de todos os outros (não considerando o efeito do ciclo, que neste ano e no próximo pode nem sequer contar).
23 janeiro 2014
Desemprego em sentido lato
Neste post procurei analisar dados que ajudassem a perceber o fraudulento "milagre" da recuperação do emprego em Portugal.
À semelhança de outros estudos, apresentei uma medida do desemprego real: aquela que soma, aos desempregados, todas as pessoas que desistiram de procurar trabalho (desencorajados) ou que declaram trabalhar menos horas que o desejado (o que não esgota todas as pessoas em situação de subemprego). Notei, no entanto, alguma dificuldade em calcular o número dos desencorajados devido a uma alteração da metodologia do INE.
Com a ajuda do JRA foi possível reconstruir essa tabela, desta vez com uma noção mais aproximada do número de desencorajados. À soma dos desempregados, subempregados visíveis e inativos por desencorajamento chamou-se "desemprego em sentido lato".
Em Portugal, o total de desempregados em sentido lado é de um milhão e quatrocentos e trinta e dois mil, numa população ativa, em redução, de cinco milhões trezentos e noventa e dois mil. A taxa de desemprego em sentido lato sobe então para 26,6%, muito acima dos 15,6% celebrados pelo governo. É esta a situação de 1 em cada 4 pessoas ativas no país.
p.s. tal como no post anterior, todos os dados apresentados provém das séries do INE.
À semelhança de outros estudos, apresentei uma medida do desemprego real: aquela que soma, aos desempregados, todas as pessoas que desistiram de procurar trabalho (desencorajados) ou que declaram trabalhar menos horas que o desejado (o que não esgota todas as pessoas em situação de subemprego). Notei, no entanto, alguma dificuldade em calcular o número dos desencorajados devido a uma alteração da metodologia do INE.
Com a ajuda do JRA foi possível reconstruir essa tabela, desta vez com uma noção mais aproximada do número de desencorajados. À soma dos desempregados, subempregados visíveis e inativos por desencorajamento chamou-se "desemprego em sentido lato".
Em Portugal, o total de desempregados em sentido lado é de um milhão e quatrocentos e trinta e dois mil, numa população ativa, em redução, de cinco milhões trezentos e noventa e dois mil. A taxa de desemprego em sentido lato sobe então para 26,6%, muito acima dos 15,6% celebrados pelo governo. É esta a situação de 1 em cada 4 pessoas ativas no país.
p.s. tal como no post anterior, todos os dados apresentados provém das séries do INE.
Jovens Diplomados em Portugal: emprego, desemprego e trabalho qualificado (parte 1)
Portugal
fez um esforço enorme de qualificação da sua população nas últimas décadas.
Hoje continuamos no geral a ter uma sociedade pouco qualificada e na cauda da
Europa mas que fez enormes progressos. Temos mais jovens qualificados mas que
ainda são muito menos dos que o universo de
jovens em idade de estudar no Ensino Superior. Mas para além da questão da
democratização do acesso e das expectativas sobre ao Ensino Superior, nestes
tempos de transformação acelerada vale a pena pensar o que está a acontecer aos
jovens diplomados em Portugal. Os dados oficiais escondem uma parte
considerável da realidade. Os dados do antigo GPEARI e da actual DGEEC que as
universidades divulgam, apenas contabilizam no "desemprego dos diplomados" os
jovens que se encontram inscritos nos centros de emprego. Como se percebe,
estes são muito menos que o universo geral de diplomados realmente em situação de desemprego. E de facto, das catorze
universidades públicas portuguesas apenas sete delas aplicam inquéritos
próprios sobre o percurso dos seus diplomados. Vejamos desses inquéritos, a
título de exemplo, o que tem acontecido na Universidade Nova de Lisboa e na
Universidade de Évora ao nível do emprego, desemprego e adequação do trabalho à
formação nos últimos anos.
![]() |
| Fig1: Situação perante a atividade dos licenciados da UNL Fonte: OBIPNOVA |
22 janeiro 2014
A FCT vicia o "mérito"
Hoje decidi demitir-me de membro do painel de avaliação de Sociologia da FCT, no seguimento de uma tomada de posição coletiva da Associação Portuguesa de Sociologia e do júri das candidaturas nesta área.
Pescadinha de rabo na boca
Não há nada a acrescentar, o João Ramos de Almeida conta a história toda aqui.
É simples e elegante: os prejuízos dos bancos são transformados em créditos fiscais ao longo dos próximos doze anos e esses créditos são declarados dívida do Estado aos bancos. Aumenta o valor contabilístico do défice, mas protege os balanços dos bancos, que passam a ter como activos ... a parte dos prejuízos que o Estado lhes vai pagar.
Lembra-se do início? Ao princípio, eram prejuízos dos bancos. Acabam em activos dos bancos e em dívida do Estado aos bancos. Percebeu como isto funciona?
É simples e elegante: os prejuízos dos bancos são transformados em créditos fiscais ao longo dos próximos doze anos e esses créditos são declarados dívida do Estado aos bancos. Aumenta o valor contabilístico do défice, mas protege os balanços dos bancos, que passam a ter como activos ... a parte dos prejuízos que o Estado lhes vai pagar.
Lembra-se do início? Ao princípio, eram prejuízos dos bancos. Acabam em activos dos bancos e em dívida do Estado aos bancos. Percebeu como isto funciona?
21 janeiro 2014
Portugal: Quem tem muito ainda mais terá (1976-2005)
A Oxfam publicou ontem um relatório sobre desigualdade económica e a acumulação de riqueza.
Além de algumas considerações interessantes ao nível global tais como metade da riqueza mundial estar na posse de apenas 1% da sua população ou que as 85 pessoas mais ricas do mundo têm uma fortuna igual à da metade da população mundial mais pobre.
Além destas considerações, o relatório apresenta algumas estimativas sobre valores concretos, nomeadamente a fortuna dos 1% mais ricos (110 triliões de dólares), a fortuna das 10 pessoas mais ricas da Europa (217 biliões de euros, mais que as medidas de estímulo económico entre 2008 e 2010 que totalizaram 200 biliões de euros), entre outras.
Além de algumas considerações interessantes ao nível global tais como metade da riqueza mundial estar na posse de apenas 1% da sua população ou que as 85 pessoas mais ricas do mundo têm uma fortuna igual à da metade da população mundial mais pobre.
Além destas considerações, o relatório apresenta algumas estimativas sobre valores concretos, nomeadamente a fortuna dos 1% mais ricos (110 triliões de dólares), a fortuna das 10 pessoas mais ricas da Europa (217 biliões de euros, mais que as medidas de estímulo económico entre 2008 e 2010 que totalizaram 200 biliões de euros), entre outras.
Um livro essencial sobre a desigualdade no século XXI
Thomas Piketty publicou há poucos meses um livro essencial sobre o capital no século XXI. Vou voltar a alguns dos temas do livro, porque ele suscita um debate fascinante sobre o conceito de capital e, sobretudo sobre as medidas da desigualdade e as formas de a combater.
No gráfico seguinte está uma das conclusões do autor: a concentração de riqueza (e de poder) do decil superior da distribuição de rendimentos, ou dos 10% mais ricos, aumentou significativamente durante as últimas três décadas e continua a aumentar de forma acelerada. Este é um dos factores mais importantes para perceber a economia e a política dos dias de hoje.
20 janeiro 2014
EUA: recuperação económica de quem?
O NYtimes publicou uma interessante compilação de gráficos que resumem o ano de 2013. O primeiro explica quem ganhou e perdeu com a crise desde 2007 e os resultados, se bem que não sejam surpreendentes, são muito claros sobre o que é a "recuperação económica" na América do Norte.
Desde 2007, e apesar de inicialmente terem sofrido perdas, os lucros das empresas e o valor das ações em bolsa cresceram mais de 40%. Por outro lado, o nível de emprego reduziu ligeiramente nestes 6 anos e os rendimentos só cresceram cerca de 4%. Os ganhos das empresas americanas atingiram o valor recorde de 2.1 milhões de biliões de dólares (trillion). Wallstreet ganha à Mainstreet em todos os campeonatos.
Desde 2007, e apesar de inicialmente terem sofrido perdas, os lucros das empresas e o valor das ações em bolsa cresceram mais de 40%. Por outro lado, o nível de emprego reduziu ligeiramente nestes 6 anos e os rendimentos só cresceram cerca de 4%. Os ganhos das empresas americanas atingiram o valor recorde de 2.1 milhões de biliões de dólares (trillion). Wallstreet ganha à Mainstreet em todos os campeonatos.
19 janeiro 2014
A grande fraude, parte I: o desemprego está mesmo a diminuir?
Em Junho de 2011, mês do início do programa da Troika, a taxa de desemprego em Portugal era de 12,1%. Hoje, está nos 15,6%. A relação entre austeridade e desemprego é indiscutível e opera-se por diferentes canais: a redução salarial e o aumento dos impostos reduzem o poder de compra e, consequentemente as perspetivas de vendas; o aumento dos impostos indiretos, como o IVA, sobrecarrega e coloca em causa a viabilidade de setores importantes da economia; a desregulamentação do mercado de trabalho fragiliza os vínculos laborais, tornando-os mais permeáveis à conjuntura económica.
A questão que se coloca é: pode a mesma austeridade responsável pelo aumento sem precedentes do desemprego em Portugal estar agora contribuir a sua redução? De que forma?
Para responder a estas (e outras) questões importa, antes de mais, perceber quais as limitações implícitas na forma de cálculo da taxa de desemprego – o que é que ela esconde – e, sobretudo, que tipo de empregos estão a ser criados no país. Só assim saberemos se a redução que a taxa apresenta é um sinal do “sucesso” da estratégia austeritária, e a quem interessa o sucesso.
A questão que se coloca é: pode a mesma austeridade responsável pelo aumento sem precedentes do desemprego em Portugal estar agora contribuir a sua redução? De que forma?
Para responder a estas (e outras) questões importa, antes de mais, perceber quais as limitações implícitas na forma de cálculo da taxa de desemprego – o que é que ela esconde – e, sobretudo, que tipo de empregos estão a ser criados no país. Só assim saberemos se a redução que a taxa apresenta é um sinal do “sucesso” da estratégia austeritária, e a quem interessa o sucesso.
A tartaruga que quer ir mais depressa do que a lebre
Uma empresa algo misteriosa, a Tortus Capital, criada em 2011 em Nova Iorque e dirigida por David Salanic (MBA por Harvard em 2007), que fez anteriormente carreira nas fusões e aquisições de um agência financeira e num hedge fund, lançou recentemente uma proposta de restruturação da dívida portuguesa.
A proposta foi suficientemente chocante para merecer a atenção do Financial Times, onde Dan McCrum escreveu sobre os “canalhas do short selling” que atacam de novo, e do Expresso, que publicou uma entrevista de Salanic (ver o texto completo da entrevista, conduzida por Jorge Nascimento Rodrigues). De facto, a Tortus especializa-se em short selling (uma forma de intervenção no mercado cuja proibição tinha sido anunciada depois da crise de 2007, ou seja, a venda de títulos cuja propriedade ainda não foi adquirida pelo vendedor, que espera comprá-los depois a preço mais baixo do que o que recebeu quando vendeu ... o que não era seu) e está por isso a especular contra a dívida portuguesa.
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