28 janeiro 2014

A praxe não é exceção

A tragédia do Meco, que aconteceu há mais de um mês, tem sido o assunto do momento, nas últimas semanas. Infelizmente, o mediatismo à volta deste caso não se deve a estarem agora finalmente apuradas as circunstâncias em que os 6 jovens morreram, mas sim à insistência dos pais, mães e avós em não deixarem o assunto cair no esquecimento. Seis pessoas morreram em circunstâncias ainda por apurar, com a forte suspeita de que a morte possa ter ocorrido no contexto de praxe.

Assistiu-se a um triste espectáculo: silêncio, inércia e impassividade por parte das autoridades responsáveis pela investigação do caso. Os jovens faleceram a 15 de dezembro e só a 21 de janeiro a Procuradoria-Geral da República determinou a aplicação do segredo de justiça, chamando a si o inquérito.

O que aconteceu foi uma verdadeira tragédia. Crime ou não crime, a morte de 6 pessoas não pode ficar por investigar. Infelizmente, a semelhança deste acontecimento com outros casos públicos de violência da praxe não se esgota só na ligação com esta prática subjugante e humilhante, mas também com a sugestão de impunidade e impassividade comum a todos os casos que ocorreram no passado.

27 janeiro 2014

Também a Chuva





Está finalmente disponível na internet a versão integral do filme de Icíar Bollaín.


Quando realidade e ficção se cruzam entre o presente e o passado sob o roteiro de Paul Laverty (Terra e Liberdade, Bread em Roses) o resultado é este filme imperdível. Dos olhares calados dos índios que viram chegar os homens feios de Colombo, até o levantar da luta contra a privatização das águas em Cochabamba, no ano 2000, muito se passou, mas algo permanece, o que antes era o ouro, pago em impostos à coroa espanhola, agora é a água, que é vida paga às companhias internacionais. E é tão simples: ela cai do céu.

Coitadinho do Seguro, segundo Rui Tavares

Diz Rui Tavares no Público, comentando um cenário "mau", pós legislativas, em que o malvado PSD, em jeito de lobo, exige ao pobre PS, o cordeirinho, que se faça uma revisão constitucional: "para aceitar fazer parte do Governo, o PSD porá em cima da mesa a revisão constitucional para diminuir o nível de proteção dos direitos económicos e sociais. António José Seguro já disse que não fará revisões da Constituição antes de eleições, mas não se sabe o que fará depois – e pode ser que não tenha outra hipótese".

Meu caro Rui Tavares: em política há sempre outra hipótese. Tem de haver sempre a outra hipótese.

26 janeiro 2014

Austeridade para 90% da população mundial em 2015

A austeridade afetará, em 2015, 6,3 mil milhões de pessoas, ou seja 90% da população mundial. “Contrariamente à perceção pública” as políticas de austeridade não se confinam à Europa e, até, se impõem ainda mais nos chamados 'países em desenvolvimento'. Estas são duas importantes conclusões do estudo “A Era da Austeridade”. Mas este estudo ajuda-nos a compreender que vivemos um novo quadro mundial marcado por políticas de austeridade o que constitui uma viragem conservadora, acentuando ainda mais as políticas de tipo neoliberal.

25 janeiro 2014

O Estado do Poder 2014

No seu terceiro relatório anual o Estado do Poder, o Transnational Institute (TNI) revela que a disparidade na distribuição da riqueza aumentou, assim como a centralização do poder. 
Esta investigação sobre a “classe de Davos”, publicada por ocasião do Fórum Económico Mundial, que terminou hoje, tem por objectivo conhecer como as elites económicas controlam a riqueza e os recursos, perceber como estas influenciam os processos sociais e políticos, e identificar os sistemas, as estruturas e políticas que lhes permitem manter o poder.
Mostra o relatório de 2014 que os milionários enriqueceram 11% em 2013, enquanto os salários e rendimentos do resto da população estagnaram ou diminuíram. A riqueza na posse de apenas 100 pessoas dava para cobrir por 513 anos as despesas do governo grego com a saúde, pensões e segurança social ou 130 anos dos gastos com a adaptação climática. De entre 43 mil transnacionais, menos de 1% controlam as ações de 40% dos negócios mundiais, a maioria delas sendo bancos.

24 janeiro 2014

Jovens Diplomados em Portugal: vínculo, salário e futuro (parte 2)

No post anterior abordei alguns dados de duas Universidades sobre a evolução do desemprego, do emprego e do trabalho qualificado nos jovens licenciados. Vejamos agora a situação contratual e o salário. Temos assistido a uma precarização progressiva dos vínculos dos diplomados e uma desvalorização salarial crescente? E o que é que isto nos diz sobre os processos mais amplos de transformação do trabalho economia portuguesa?


Fig1: Situação perante o trabalho nos Diplomados da UNL
Fonte: OPIPNOVA

A passadeira vermelha

No debate suscitado pelo lançamento de Os Donos Angolanos de Portugal, há um interpelação frequente: o capital angolano é “pior” que os outros? A esquerda padece de “xenofobia económica”?
A questão pode também ser colocada quanto ao capital chinês, como convida o relatório publicado há dias pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação acerca da acumulação privada na cúpula de Pequim. Treze familiares de dirigentes máximos do regime, entre os quais o cunhado do presidente Xi Jinping, o filho e o genro do ex-primeiro ministro Wen Jiabao, assim como quinze dirigentes de grandes companhias estatais, acumularam as suas fortunas pessoais em offshores nas Ilhas Virgens britânicas. O caso sublinha uma vez mais a natureza do regime do Partido Comunista Chinês (PCC), que reúne o pior de dois mundos - ditadura de partido único e saque capitalista.

23 janeiro 2014

Brincar ao défice

O número é este: o défice terá sido (dados provisórios) de 7151,5 milhões, menos 1748,5 do que o estava previsto (5,9% do PIB) e, portanto, abaixo do limite imposto pela troika (5,5% na última versão, na primeira era de 3%, o desvio é de cerca de 3500 milhões de euros).
A demagogia é esta: está tudo a correr bem.
A realidade é esta: este valor foi obtido com enorme aumento de impostos (mais 35,5% de IRS) e com receitas irrepetíveis (1253 milhões do perdão fiscal e 400 milhões da ANA).
O presente é este: neste ano, o défice terá de baixar mais 1700 milhões (e o que era irrepetível não se repete).
O futuro é este: o Tratado Orçamental prevê cortes de mais de cinco mil milhões, em cima de todos os outros (não considerando o efeito do ciclo, que neste ano e no próximo pode nem sequer contar).

Desemprego em sentido lato

Neste post procurei analisar dados que ajudassem a perceber o fraudulento "milagre" da recuperação do emprego em Portugal.
À semelhança de outros estudos, apresentei uma medida do desemprego real: aquela que soma, aos desempregados, todas as pessoas que desistiram de procurar trabalho (desencorajados) ou que declaram trabalhar menos horas que o desejado (o que não esgota todas as pessoas em situação de subemprego). Notei, no entanto, alguma dificuldade em calcular o número dos desencorajados devido a uma alteração da metodologia do INE.
Com a ajuda do JRA foi possível reconstruir essa tabela, desta vez com uma noção mais aproximada do número de desencorajados. À soma dos desempregados, subempregados visíveis e inativos por desencorajamento chamou-se "desemprego em sentido lato".
Em Portugal, o total de desempregados em sentido lado é de um milhão e quatrocentos e trinta e dois mil, numa população ativa, em redução, de cinco milhões trezentos e noventa e dois mil. A taxa de desemprego em sentido lato sobe então para 26,6%, muito acima dos 15,6% celebrados pelo governo. É esta a situação de 1 em cada 4 pessoas ativas no país.

 
p.s. tal como no post anterior, todos os dados apresentados provém das séries do INE. 

Jovens Diplomados em Portugal: emprego, desemprego e trabalho qualificado (parte 1)

Portugal fez um esforço enorme de qualificação da sua população nas últimas décadas. Hoje continuamos no geral a ter uma sociedade pouco qualificada e na cauda da Europa mas que fez enormes progressos. Temos mais jovens qualificados mas que ainda são muito menos dos que o universo de jovens em idade de estudar no Ensino Superior. Mas para além da questão da democratização do acesso e das expectativas sobre ao Ensino Superior, nestes tempos de transformação acelerada vale a pena pensar o que está a acontecer aos jovens diplomados em Portugal. Os dados oficiais escondem uma parte considerável da realidade. Os dados do antigo GPEARI e da actual DGEEC que as universidades divulgam, apenas contabilizam no "desemprego dos diplomados" os jovens que se encontram inscritos nos centros de emprego. Como se percebe, estes são muito menos que o universo geral de diplomados realmente em situação de desemprego. E de facto, das catorze universidades públicas portuguesas apenas sete delas aplicam inquéritos próprios sobre o percurso dos seus diplomados. Vejamos desses inquéritos, a título de exemplo, o que tem acontecido na Universidade Nova de Lisboa e na Universidade de Évora ao nível do emprego, desemprego e adequação do trabalho à formação nos últimos anos.

Fig1: Situação perante a atividade dos licenciados da UNL
Fonte: OBIPNOVA