04 fevereiro 2014

António Cândido e o Brasil de ontem.

No Brasil, a imprensa económica vibra perante a possibilidade da economia tupiniquim vir a ultrapassar a da Grã-Bretanha durante a próxima década, consolidando-se como a quinta maior do planeta. Entretanto, em meio a uma crise governamental, Dilma Rousseff enfrenta as explosões de uma crise urbana em gestação. Depois das mobilizações de junho, contra o aumento do preço dos transportes públicos, os "rolezinhos" dos jovens da periferia tomam os centros comerciais, numa exigência da promessa de cidade criada em tempos pelo PT. Nesta voragem urbana do novo Brasil, há muito de passado, das contradições e insuficiências legadas pela história. Esta aula do António Cândido não explica estas novas realidades, mas ajuda a perceber um pouco do seu começo.  

03 fevereiro 2014

A história da crise em taxas de juro


 Um amigo chamou a minha atenção para esta história da crise em taxas de juro (gráfico da Reuters). O que nos conta é evidente:

1) Houve um período de confiança e de convergência destas taxas de juro (títulos de dívida pública a 10 anos) após a criação do euro.

2) Com a crise do subprime, a falência do Lehman Brothers e a recessão de 2008, essa convergência deu lugar à divergência e as economias mais frágeis da zona euro ficaram sob intenso ataque.

02 fevereiro 2014

As perdas dos pensionistas em contas certas

Vitor Junqueira, no Buracos na Estrada, apresenta as contas rigorosas do que perderam os pensionistas e beneficiários do CSI durante os anos da troika: entre 9,5% e 21%. No caso dos mais pobres, que recebem o complemento solidário, a perda vai pelos 1537 euros. Vale a pena ler, para saber.

01 fevereiro 2014

Lutas colectivas contra vidas hipotecadas: o caso da PAH



Escrito por duas fundadoras do PAH- Plataforma de Afectados por la Hipoteca, o livro “Vidas Hipotecadas, de la burbuja immobiliaria al derecho a la vivienda” aponta as causas e responsáveis pela crise imobiliária no Estado Espanhol e conta a origem, as lutas e iniciativas da PAH contra os despejos e pelo direito à habitação.

Desde 2007 foram executadas mais de 35.000 hipotecas que deixaram na rua milhares de famílias endividadas por uma casa que perderam, refere-se na introdução deste livro de 2012, agora traduzido em inglês. Lá como cá, ser despejado por não conseguir pagar a casa ao banco não extingue a dívida. O banco fica com a casa, o dinheiro pago pela casa e ainda reclama o que o mercado desvalorizou.

Mas mais do que números, estas autoras falam-nos das vidas por detrás dos despejos, do seu desespero mas também da luta pela sobrevivência e dignidade de quem não ficou resignado. De como uma problemática individual se transformou numa luta coletiva e de como, por essa via, se conseguiu travar despejos, ocupar casas vazias para pessoas sem casa, envergonhar governantes e provocar algumas mudanças legislativas. A mais recente ocorreu em Barcelona, com mais de 1 milhão de habitantes. Esta cidade junta-se a outros 20 municípios catalães na aprovação de uma moção impulsionada pela PAH para multar até 100.000 euros os proprietários de casas permanentemente vazias, a começar pelas que estão nas mãos de entidades financeiras e grandes empresas.

Os livros dos Inflectores: Os Donos Angolanos de Portugal


Introdução

Os Donos Angolanos de Portugal nasceu de uma investigação mais vasta sobre a formação da burguesia portuguesa, na preparação de um outro livro, Os Burgueses, que será publicado depois deste que tem entre mãos.

Enquanto investigávamos e escrevíamos sobre a história, as formas de acumulação de capital e de organização do poder social em Portugal, fomos registando os indícios de uma transformação que, nos últimos anos, acentua as ligações internacionais, a cooperação e aliança entre capitais nacionais e particularmente capitais angolanos, brasileiros e chineses, além dos tradicionais parceiros europeus. De todas estas ligações, a angolana é a mais destacada. É também a mais desconhecida.

31 janeiro 2014

Deduções Fiscais: As Finanças como offshore?




Há três dias, o jornal Público, entre outros, apresentou dados sobre as deduções fiscais ao IRC no ano de 2012. Além do facto da Sociedade Francisco Soares dos Santos e a Santa Casa da Misericórdia tomarem a dianteira dos que mais foram beneficiados, deixo este contributo para tentarmos perceber quem é que as deduções fiscais têm beneficiado e como. Começando pelo princípio, a seguinte figura mostra como evoluíram em número de empresas beneficiadas e em valor, as deduções fiscais entre 2010 e 2012.

Figura 1: Deduções Fiscais em valor e beneficiários, por ano

30 janeiro 2014

Praxe: virar o bico ao prego

"Mas eu não quero me encontrar com gente louca",observou Alice.
" Você não pode evitar isso", replicou o gato.
"Todos nós aqui somos loucos.Eu sou louco,você é louca".
"Como você sabe que eu sou louca?" indagou Alice.
"Deve ser", disse o gato, "Ou não estaria aqui".



O debate aberto pela tragédia da praia do meco lançou luz sobre uma evidência, as praxes existem mesmo. Como uma mobília velha, estas instalaram-se no espaço universitário e trivializaram-se no uso e no abuso. Deixe de ler estas linhas quem nunca virou o rosto, acelerou o passo ou simplesmente ignorou as emoções perante um ritual praxístico. A boa notícia é que a discussão que agora se abre permite extirpar do quotidiano o torpor dessa evidência e combatê-la na largueza das suas consequências.

Quase quarenta anos a fazer ligações diretas


Os Xutos e Pontapés são daquelas coisas que mesmo que quisesse não me conseguiria desprender. São quase quarenta anos de rock que acompanharam os quarenta anos de democracia. E são sobretudo fruto de uma mudança na sociedade portuguesa que acolheu o riffs alucinantes, o ritmo acelerado, a crítica ácida ao sistema e ao poder e o espírito anti-subversivo. Não foram só os Xutos mas neste novo disco - Puro - eles voltam a confirmar que são provavelmente a banda de rock português mais sólida do ponto de vista de produção de originais desde 1978. Não desapareceram da ribalta, estiveram sempre a produzir e no essencial não mudaram a sua identidade nestes tempos em que a música que roda nos grandes circuitos comerciais tem percorrido caminhos estranhos onde o rock quase já não cabe. 

Um século depois da Primeira Grande Guerra, o mundo entorta-se

Thomas Piketty, no seu grande livro sobre o capital no século XXI, apresenta este gráfico sobre a repartição da produção mundial desde 1700.

Sendo indicativos e aproximados, os dados são ilustrativos de algumas grandes mudanças. A primeira e mais importante é a recuperação do peso da Ásia: em 1700 representava cerca de 60% da produção mundial, depois o seu lugar degradou-se, agora tem crescido até chegar a 40%. É o maior centro de produção da economia mundial.

O CES, os patrões e a voz do dono



O Conselho Económico e Social (CES) ocupa uma posição secundária na esfera das relações económicas e laborais em Portugal. Criado no período de transição pós-ditatorial, como assinalou Boaventura Sousa Santos, o CES assumiu um papel travestido de concertação social onde mais do que ser, importava parecer. Longe do modelo europeu assente na existência e participação de centrais sindicais fortes em número ou combatividade, o Estado conduziu quase sempre as negociações mais do que cedeu perante estas. Na era da troika, o que importa constatar é que o CES, à semelhança de outros órgãos de relevo, deixa transparecer com mais intensidade as contradições próprias de um regime a reboque da austeridade.