12 maio 2014

Os Burgueses: 40 anos de poder e recomposição





"Nos primeiros tempos não havia tempo para pensar com muita profundidade o que se estava a fazer: era só uma certa intuição, talvez também uma certa dose de teimosia e perseverança”. Assim lembra António Vasco de Mello, referindo-se à criação da Associação Industrial Portuguesa (AIP) escassos dias após o 25 de Abril de 1974.

O pensamento e ação da burguesia portuguesa na voragem militar e popular que aniquilou o marcelismo resultaram, como sabemos, numa derrota em curto prazo. A aposta perdida de Spínola e a polarização no seio do MFA, reflexo da agudização de contradições sob a crescente pressão popular, ditaram o novo cenário.

As três maiores dinastias da burguesia portuguesa, Mello, Champalimaud e Espírito Santo, perante uma cúpula política incapaz de organizar a defesa da classe, partiam para o exílio. Para compreender o regresso e a reconquista de Vasco de Mello, que viveu o desterro suíço com o seu pai, José de Mello, é necessária mais atenção à complexa dinâmica social e histórica do que à “teimosia” do burguês.

11 maio 2014

Afinal foram os bancos alemães


Um ex-assessor de Durão Barroso, Philippe Legrain, em entrevista ao Público: a vantagem dos bancos alemães e da finança europeia determinou o modelo da política das troikas. Esta crise foi uma crise bancária. Tem razão.

08 maio 2014

Um livro sem fronteiras


Viagens e outras viagens está longe de se confundir com um guia turístico. Nesta obra, Antonio Tabucchi leva-nos numa viagem por um mundo onde as identidades se impõem face às bandeiras e interpela-nos sobre a pretensão de apropriação do espaço e do tempo. É que, como adverte o autor na nota que precede as crónicas, “pousar os pés no mesmo chão durante toda a vida pode originar um perigoso equívoco, o de fazer-nos crer que essa terra nos pertence”.

Antonio Tabucchi nasceu na comuna de Vecchiano, na região italiana de Pisa, em 1943. Chegaria a Portugal mais de duas décadas depois, no verão de 1965, depois de ter ganho uma bolsa de estudo para o melhor aluno do curso de Português. Fez de Lisboa a sua morada, vindo a falecer nesta cidade na manhã do dia 25 de março de 2012. Pelo caminho, emprestou à política um pouco do seu desassossego. Apoiou Mário Soares e foi candidato pelo Bloco de Esquerda ao Parlamento Europeu. Com ou sem atividade pública, utilizou a escrita como instrumento de um combate que não conhece fronteiras: da crítica do salazarismo num Portugal atrasado em que “todos vestiam de preto e usavam chapéu”1 à intransigência na urgência de “desberlusconizar a Itália”2.

07 maio 2014

Apelo para as Eleições Europeias: Economistas europeus por um novo caminho

Nas vésperas das eleições europeias de maio de 2014, a Europa, vítima de continuadas políticas de austeridade, está numa situação de estagnação económica e de uma forte subida das desigualdades, assim como está perante um fosso cada vez maior entre os países do centro e os da periferia. A democracia está a ser minada ao nível nacional e não progride ao nível europeu. O poder concentrou-se entre as mãos de instituições tecnocráticas, que não têm contas a dar a ninguém, e as dos Estados mais fortes. Ao mesmo tempo, desencadeiam-se vagas de populismo sobre a Europa, com a subida de perigosos movimentos nacionalistas em certos países. Esta não é a Europa que se imaginou há algumas décadas atrás, como um espaço pacificado de integração económica e política. Esta não é a Europa que prometia progressos económicos e sociais, a extensão da democracia e dos direitos sociais. É necessária uma mudança radical. As eleições europeias de maio de 2014 são uma oportunidade importante para rejeitar o impasse da Europa neoliberal, assim como as tentações populistas, e afirmar que é possível Um Outro Caminho para a Europa.

A Rede de Economistas Progressistas Europeus (Euro-pen), que reúne economistas e grupos da sociedade civil, apela aos cidadãos europeus e às forças políticas e sociais a que se empenhem num debate à escala de toda a Europa sobre as alternativas possíveis. Propomos cinco eixos de mudança radical nas políticas europeias. Estas ideias deveriam estar no centro da campanha eleitoral, bem como nas atividades do novo Parlamento Europeu e da Comissão Europeia.

06 maio 2014

Guiné Equatorial: as razões que Martins da Cruz não encontra


A entrada da Guiné Equatorial na CPLP tem gerado um interessante debate. A novidade é a entrada na discussão de António Martins da Cruz. Recorde-se os mais esquecidos que, depois de ter sido assessor diplomático de Cavaco Silva, Martins da Cruz foi ministro de Durão Barroso – cargo do qual não se pode dizer que tenha tido uma saída limpa.

Diz Martins da Cruz que não encontra “razões para que a Guiné Equatorial não seja aceite na CPLP”. A afirmação não provoca surpresa, acompanhando as declarações servis de Luís Amado e Rui Machete. Os argumentos alternam entre a negação da realidade e a admissão, essa sincera, de que as relações políticas entre Estados não devem ser submetidas ao critério da democracia. Em todo o caso, valerá a pena referir o que tenta esconder o trio Cruz-Amado-Machete sobre a ditadura de Teodoro Obiang.

05 maio 2014

25 de Abril sempre – se há praias em nós, ondas virão

Foto de Eduardo Gageiro, 1º de Maio de 1974

«Oh meu amor! Temos connosco a praia da violência de alma. E, se há praias em nós, ondas virão.» Escreveu Jorge de Sena em «Conquista», Poesia I. Tanto é assim, ou assim foi, que estamos aqui hoje a comemorar os 40 anos de Abril, envoltos na saudação da revolução, esse impossível desmentido, e na recuperação da sua herança. É uma honra poder hoje dirigir-vos umas palavras, e faço-o modestamente e na qualidade de alguém que pertence à geração da encruzilhada: não vivi em ditadura, nem pude experienciar a manhã da liberdade e os dias quentes que se seguiram. Mas cresci ainda usufruindo não só desse bem maior que Abril nos trouxe, a democracia, como também do Estado Social, da escola e da saúde públicas. Hoje, tudo isso está em risco e a dívidadura cala-nos a esperança. Resta-nos reclamar de volta aquilo que não conquistámos, mas temos o direito e o dever de preservar e aprofundar. Entre o passado e o futuro, não podemos perder a oportunidade do presente.

04 maio 2014

[PUB] Vírus N5 - 40 anos depois de Abril




Editorial, Por Fernando Rosas

Lembrar o 25 de Abril é refletir sobre o gesto fundador da Revolução portuguesa de 1974/75 e sobre a marca genética que deixou impressa na democracia que dela sobrou.

É a defesa desse património primacial e do mais que a luta popular lhe acrescentou que ainda hoje separa as águas entre a esquerda e a direita em Portugal. Por isso discutimos nesta edição os caminhos que desbravou e os outros por que se perdeu a Revolução de 1974/75.

Os avanços e recuos, as conquistas, as derrotas, a recomposição da burguesia, o regresso da despolitização, a reforma e contra reforma agrária, o “poder popular” e os seus limites, e, por sobre tudo isso, o futuro que temos pela frente. O Dossiê, onde recebemos as contribuições de Jorge Costa, Adriano Campos, Miguel Perez, Constantino Piçarra e Luís Trindade, passa este conjunto de assuntos em revista.

03 maio 2014

Desigualdades, serviços públicos e justiça global

Que diferenças há no mundo em termos de oferta de serviços públicos e que relações têm eles com os indicadores de saúde e educação e com as desigualdades globais? 
Num estudo que publiquei no Observatório das Desigualdades procurei a partir dos dados do PNUD de 2013, discutir algumas dimensões e indicadores relacionados com os serviços públicos, as despesas sociais, o investimento público e indicadores de saúde e educação, em cinco grandes grupos de países: a) países do sul da Europa com programas de assistência financeira ou similares (Portugal, Grécia e Espanha); b) países do centro da Europa com mais poder nos centros de decisão europeu (Alemanha e França); c) países do Norte da Europa que têm uma configuração de Estado-social muito desenvolvida (Noruega e Dinamarca); d) novos países desenvolvidos, que estão a ganhar muita importância da geopolítica mundial (Brasil, China e Turquia); 5) e países de regiões do Médio Oriente, África e América Latina (Arábia Saudita, África do Sul e Argentina). 
Aqui ficam os resultados e algumas pistas para pensar o momento económico, social e político que vivemos em Portugal e na Europa. 

02 maio 2014

Um filme que faltava

Tive recentemente a oportunidade de ver o filme "Guerra ou Paz" de Rui Simões. Aconselho vivamente . Não apenas pelo rigor técnico e a criatividade do realizador, mas também porque nos mostra uma parte da nossa história que está por fazer e por contar. A história de uns tantos milhares de portugueses que abandonaram o país por rejeitarem a participação na guerra colonial. As suas histórias, vidas e percursos ficaram perdidos na vaga documental que a seguir à revolução esteve concentrada no relato do obscurantismo do fascismo, nas novas experiências revolucionárias de auto-organização e luta política e na experimentação de arte na sua plenitude e sem censuras. Rui Simões volta atrás no tempo para dar visibilidade aos rostos e às vidas de quem fugiu do país. Mostra-nos de forma impressionante (e por vezes bastante caricata) que mesmo nos tempos cinzentos, há sempre alguém que resiste e não aceita o que dizem ser inevitável. Essa lição da história é hoje mais precisa que nunca. 



30 abril 2014

Erro 2 de Helena Matos e José Manuel Fernandes: a precariedade dos mais novos é culpa dos mais velhos

Os Precários Inflexíveis respondem aos guardadores do regime: 

Segunda parte da resposta ao livro de Helena Matos (HM) e José Manuel Fernandes (JMF) - "Este país não é para jovens":


«"Portugal, como outros países do sul da Europa, tem um mercado de trabalho profundamente segmentado, um mercado dual, um mercado onde uns seguem umas regras e outros obedecem a regras completamente diferentes.” Esta segmentação, segundo HM e JMF, consubstancia-se num confronto geracional, no qual a precariedade e o desemprego dos mais novos são causados pelos direitos dos mais velhos, nomeadamente o direito a não ser despedido sem justa causa. Perante a impossibilidade desse ajustamento “normal do mercado”, as empresas recorrem aos contratos temporários como forma de se protegerem, atirando as novas gerações de trabalhadores para os vínculos precários.

Antes de analisarmos esta dinâmica, atentemos aos números de HM e JMF. “Em 2011, de acordo com o Inquérito ao Emprego do INE, a percentagem dos que tinham menos de 25 anos e estavam contratados a prazo era superior a 50%. Até aos 35 anos a percentagem dos que tinham contrato a prazo continuava a ser superior à média do conjunto dos trabalhadores, sendo que a partir dos 40 anos se situava, por regra, abaixo dos 10%.” Este retrato procura confirmar a tese da impermeabilidade dos trabalhadores mais velhos à precariedade. Essa tese está errada.