20 maio 2014

O Acordo do Neoliberalismo Transatlântico


No verão de 2013, o governo de Barack Obama reuniu com representantes de governos europeus para negociar o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT), um tratado que abrirá as portas a uma maior liberalização das economias europeias. O tratado é apresentado pelas autoridades europeias como uma panaceia para o crescimento económico e o emprego, mas o secretismo com que as negociações decorrem é suficiente para perceber que não é algo tão consensual como a recuperação da economia que está em causa.

Conforme explicou a Seattle to Brussels Network [Rede Seattle a Bruxelas], o APT vai muito além da eliminação de barreiras à circulação de mercadorias, prevendo mecanismos para a revogação de normas legais que protegem consumidores, trabalhadores e o ambiente. Para criar uma zona de livre comércio EUA-UE, a maior do mundo, o acordo estipula a uniformização destas normas legais pelo mínimo denominador comum.1

17 maio 2014

18 de Maio, referendo histórico contra a privatização da água em Thessaloniki


No próximo domingo, dia 18 de Maio, está previsto um momento histórico em Thessaloniki, a segunda maior cidade da Grécia com 1,5 milhões de habitantes. Além da primeira volta às eleições municipais e para a prefeitura, está prevista a realização de um referendo local contra a privatização da companhia pública de abastecimento e saneamento de água EYATH.

Este referendo, não reconhecido oficialmente, é já uma vitória dos cidadãos e cidadãs desta cidade que nos últimos três se têm oposto a esta medida incluída no memorandum e apoiada pelo Governo grego. Mas hoje mesmo, nas vésperas da sua realização, o Governo anunciou que este referendo é ilegal e mandou os juízes supervisionar os locais de voto. Se o referendo terá condições de ser realizado é ainda uma incógnita. Em todo o caso, mostra como a vontade popular fragiliza o Governo que tem de tomar uma posição de força para evitar que se realize.

O pânico a Piketty e a direita sem ideias


Por Paul Krugman

O novo livro do economista francês Thomas Piketty, “O capital no século XXI”, é um prodígio de honestidade. Outros livros de economia foram um sucesso nas vendas, mas diferentemente da maioria deles, a contribuição de Piketty tem uma séria erudição, capaz de mudar a retórica. E os conservadores estão aterrorizados.

Por isso, James Pethokoukis, do American Interprise Institute, adverte na revista “National Review” que o trabalho de Piketty precisa ser refutado porque, do contrário, “se propagará entre a clerezia e dará nova forma ao cenário da economia política em que serão travadas todas as futuras batalhas sobre política”.

16 maio 2014

Acredita, se não tiveres nojo



«Amanhã a Troika vai embora, mas deixa esta dívida atrás de si. Com ela, a garantia de visitas regulares do FMI, que nunca confia o seu dinheiro a mãos demasiado democráticas. Com ela, um plano detalhado de pagamentos, com metas e velocidades previamente acordadas com o governo.

Amanhã a Troika vai embora mas deixa um outro pacto de regime em sua substituição: o Tratado Orçamental. É a austeridade feita lei e a garantia da ingerência de Bruxelas sempre que isso não for cumprido.

Amanhã a Troika vai embora mas os salários não são devolvidos, nem o SNS, nem as pensões, nem os impostos, nem os empregos, nem o futuro.

Amanhã, a Troika vai embora. E cá vai, um brinde de Murganheira ao novo 25 de Abril! Não tens nojo?»

12 maio 2014

Os Burgueses: 40 anos de poder e recomposição





"Nos primeiros tempos não havia tempo para pensar com muita profundidade o que se estava a fazer: era só uma certa intuição, talvez também uma certa dose de teimosia e perseverança”. Assim lembra António Vasco de Mello, referindo-se à criação da Associação Industrial Portuguesa (AIP) escassos dias após o 25 de Abril de 1974.

O pensamento e ação da burguesia portuguesa na voragem militar e popular que aniquilou o marcelismo resultaram, como sabemos, numa derrota em curto prazo. A aposta perdida de Spínola e a polarização no seio do MFA, reflexo da agudização de contradições sob a crescente pressão popular, ditaram o novo cenário.

As três maiores dinastias da burguesia portuguesa, Mello, Champalimaud e Espírito Santo, perante uma cúpula política incapaz de organizar a defesa da classe, partiam para o exílio. Para compreender o regresso e a reconquista de Vasco de Mello, que viveu o desterro suíço com o seu pai, José de Mello, é necessária mais atenção à complexa dinâmica social e histórica do que à “teimosia” do burguês.

11 maio 2014

Afinal foram os bancos alemães


Um ex-assessor de Durão Barroso, Philippe Legrain, em entrevista ao Público: a vantagem dos bancos alemães e da finança europeia determinou o modelo da política das troikas. Esta crise foi uma crise bancária. Tem razão.

08 maio 2014

Um livro sem fronteiras


Viagens e outras viagens está longe de se confundir com um guia turístico. Nesta obra, Antonio Tabucchi leva-nos numa viagem por um mundo onde as identidades se impõem face às bandeiras e interpela-nos sobre a pretensão de apropriação do espaço e do tempo. É que, como adverte o autor na nota que precede as crónicas, “pousar os pés no mesmo chão durante toda a vida pode originar um perigoso equívoco, o de fazer-nos crer que essa terra nos pertence”.

Antonio Tabucchi nasceu na comuna de Vecchiano, na região italiana de Pisa, em 1943. Chegaria a Portugal mais de duas décadas depois, no verão de 1965, depois de ter ganho uma bolsa de estudo para o melhor aluno do curso de Português. Fez de Lisboa a sua morada, vindo a falecer nesta cidade na manhã do dia 25 de março de 2012. Pelo caminho, emprestou à política um pouco do seu desassossego. Apoiou Mário Soares e foi candidato pelo Bloco de Esquerda ao Parlamento Europeu. Com ou sem atividade pública, utilizou a escrita como instrumento de um combate que não conhece fronteiras: da crítica do salazarismo num Portugal atrasado em que “todos vestiam de preto e usavam chapéu”1 à intransigência na urgência de “desberlusconizar a Itália”2.

07 maio 2014

Apelo para as Eleições Europeias: Economistas europeus por um novo caminho

Nas vésperas das eleições europeias de maio de 2014, a Europa, vítima de continuadas políticas de austeridade, está numa situação de estagnação económica e de uma forte subida das desigualdades, assim como está perante um fosso cada vez maior entre os países do centro e os da periferia. A democracia está a ser minada ao nível nacional e não progride ao nível europeu. O poder concentrou-se entre as mãos de instituições tecnocráticas, que não têm contas a dar a ninguém, e as dos Estados mais fortes. Ao mesmo tempo, desencadeiam-se vagas de populismo sobre a Europa, com a subida de perigosos movimentos nacionalistas em certos países. Esta não é a Europa que se imaginou há algumas décadas atrás, como um espaço pacificado de integração económica e política. Esta não é a Europa que prometia progressos económicos e sociais, a extensão da democracia e dos direitos sociais. É necessária uma mudança radical. As eleições europeias de maio de 2014 são uma oportunidade importante para rejeitar o impasse da Europa neoliberal, assim como as tentações populistas, e afirmar que é possível Um Outro Caminho para a Europa.

A Rede de Economistas Progressistas Europeus (Euro-pen), que reúne economistas e grupos da sociedade civil, apela aos cidadãos europeus e às forças políticas e sociais a que se empenhem num debate à escala de toda a Europa sobre as alternativas possíveis. Propomos cinco eixos de mudança radical nas políticas europeias. Estas ideias deveriam estar no centro da campanha eleitoral, bem como nas atividades do novo Parlamento Europeu e da Comissão Europeia.

06 maio 2014

Guiné Equatorial: as razões que Martins da Cruz não encontra


A entrada da Guiné Equatorial na CPLP tem gerado um interessante debate. A novidade é a entrada na discussão de António Martins da Cruz. Recorde-se os mais esquecidos que, depois de ter sido assessor diplomático de Cavaco Silva, Martins da Cruz foi ministro de Durão Barroso – cargo do qual não se pode dizer que tenha tido uma saída limpa.

Diz Martins da Cruz que não encontra “razões para que a Guiné Equatorial não seja aceite na CPLP”. A afirmação não provoca surpresa, acompanhando as declarações servis de Luís Amado e Rui Machete. Os argumentos alternam entre a negação da realidade e a admissão, essa sincera, de que as relações políticas entre Estados não devem ser submetidas ao critério da democracia. Em todo o caso, valerá a pena referir o que tenta esconder o trio Cruz-Amado-Machete sobre a ditadura de Teodoro Obiang.