31 maio 2014

DN e a arte de inventar: Tsipras não apoia Junker para a comissão






Depois do Público ter dedicado um preguiçoso e mal amanhado artigo sobre o resultado esperançoso do Podemos, o DN faz fogo sobre Alexis Tsipras. Quatro dias bastaram para que se instalasse uma velhinha narrativa que tem pouco de jornalística e muito de ideológica: num contexto de crise, sobem os extremos, à direita e à esquerda, iguais em quase tudo, ambos hediondos e, por isso, alvos a abater.

Interessa pouco que o Podemos defenda uma democracia aprofundada e a nacionalização de sectores resgatados pelos salários das pessoas, enquanto o presidente honorário da Frente Nacional defenda o extermínio de africanos pelo vírus Ébola. Ou que o Syriza se apresente como o único bloco político na Europa capaz de travar os ditames da senhora Merkel - imagine-se o que serão os conselhos europeus se Tsipras for eleito Primeiro-ministro - enquanto Beppe Grillo e Nigel Farage negoceiam a criação de um grupo parlamentar populista. As manchetes impõem-se. 

30 maio 2014

O que nos ensina a disputa no PS?



Nem uma semana passada das eleições europeias, os eleitores transmutaram-se em espectadores da contenda anunciada no PS. A disputa entre Costa e Seguro diz-nos muito sobre a política e o seu centro, e ainda mais sobre o que está por vir.


O poder é tudo


A candura com que os apoiantes de António Costa defendem a aniquilação de Seguro traduz-se na palavra de ordem lançada pelos seus apóstolos: ambição. A insolúvel incapacidade mediática de Seguro deve dar lugar a uma liderança forte, capaz de federar o partido para o assalto às legislativas. Esta forma de política é mais congénita do que extemporânea. Os mesmos que se passearam com Assis e Seguro pela campanha eleitoral, que assinaram o compromisso eleitoral do PS, que votaram parcimoniosamente a linha política da direção, apresentam agora a conta: 1 milhão de votos não nos bastam como poder, o que é o mesmo que dizer que importam muito pouco como tradução de um projeto programático. O desprezo pelos eleitores é o primeiro e maior resultado desta disputa.

As Benevolentes



É o nome de um livro escrito por Jonathan Littell.  Um livro tão maravilhoso quanto duro. Aliás, muito provavelmente, tão maravilhoso porque duro. É a incómoda descrição de como o regime nazi, nas suas diferentes fases, foi alimentado e suportado pelas escolhas quotidianas de pessoas comuns. 
Para além do retrato da guerra, a dureza d’ “As benevolentes” vem da forma como nos confronta com a essência afinal tão humana e social de fenómenos que, talvez por proteção, preferimos encarar como o produto de uma loucura excecional, desumana. Sem simetrias forjadas ou forçadas entre a Europa dos anos 40 e a de hoje, o peso da história que carregamos devia fazer-nos, pelo menos, estar atentos aos sinais dos tempos. 
Em França, no Reino Unido e na Dinamarca partidos populistas de extrema direita ganharam as eleições; na Áustria, Finlândia, Grécia, e Hungria foram os 2ºs ou 3ºs mais votados. Na Alemanha, na Holanda e na Itália elegeram eurodeputados. No total, a extrema direita é a terceira maior força política no Parlamento Europeu. 

Surpresa? Talvez pela dimensão do fenómeno, mas nada que não tivesse sido previsto, estudado e analisado nos últimos anos.

27 maio 2014

Declínio do bipartidismo, ascenso do PODEMOS e reforço do soberanismo na Catalunha



Por Jaime Pastor

«Pese a que la participación ha sido solo de un 45,85 %, las elecciones al Parlamento Europeo se han convertido en un primer test de la evolución de la situación política y social española desde que gobierna el PP. Por eso, aun no siendo extrapolables a unas elecciones generales, sus resultados marcan un punto de inflexión en el marco de la agravación de la crisis del régimen y del ciclo de luchas inaugurado hace tres años por el 15M, apuntando hacia un cambio radical en el panorama político de los próximos años.

El dato más relevante es el anuncio del principio del fin del bipartidismo, como se está reconociendo en la casi totalidad de los medios de comunicación. En efecto, el retroceso de los dos grandes partidos es incuestionable, si bien es el PSOE el principal perjudicado. El PP pasa de obtener un 42,12 % de votos y 24 escaños en 2009 a 26,05 % y 16 respectivamente ahora, mientras que el PSOE desciende de de 38,78 % de votos y 23 escaños a 23% y 14. Nunca había ocurrido que la suma de ambos partidos estuviera por debajo del 50% de votos y, por tanto, cabe pronosticar que esa tendencia va a ser difícilmente reversible a escala estatal, si bien es probable que todavía se exprese de forma desigual (como en el caso de Andalucía, en donde el PSOE resiste relativamente bien) con ocasión de las elecciones autonómicas y municipales de mayo del próximo año.

O que os dados (não) dizem

Saiu há poucos dias o mais recente relatório do Eurydice, uma rede europeia que recolhe e sistematiza dados sobre o ensino superior e as políticas educativas na Europa. É um relatório extenso centrado em quatro dimensões da modernização do ensino superior: o acesso ao sistema; a retenção; a flexibilidade na gestão do estudo; e a empregabilidade e inserção profissional dos diplomados. São mais de 90 páginas que comparam vários aspetos destas quatro dimensões. De uma primeira leitura vale a pena destacar alguns dados interessantes. 

20 maio 2014

O Acordo do Neoliberalismo Transatlântico


No verão de 2013, o governo de Barack Obama reuniu com representantes de governos europeus para negociar o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT), um tratado que abrirá as portas a uma maior liberalização das economias europeias. O tratado é apresentado pelas autoridades europeias como uma panaceia para o crescimento económico e o emprego, mas o secretismo com que as negociações decorrem é suficiente para perceber que não é algo tão consensual como a recuperação da economia que está em causa.

Conforme explicou a Seattle to Brussels Network [Rede Seattle a Bruxelas], o APT vai muito além da eliminação de barreiras à circulação de mercadorias, prevendo mecanismos para a revogação de normas legais que protegem consumidores, trabalhadores e o ambiente. Para criar uma zona de livre comércio EUA-UE, a maior do mundo, o acordo estipula a uniformização destas normas legais pelo mínimo denominador comum.1

17 maio 2014

18 de Maio, referendo histórico contra a privatização da água em Thessaloniki


No próximo domingo, dia 18 de Maio, está previsto um momento histórico em Thessaloniki, a segunda maior cidade da Grécia com 1,5 milhões de habitantes. Além da primeira volta às eleições municipais e para a prefeitura, está prevista a realização de um referendo local contra a privatização da companhia pública de abastecimento e saneamento de água EYATH.

Este referendo, não reconhecido oficialmente, é já uma vitória dos cidadãos e cidadãs desta cidade que nos últimos três se têm oposto a esta medida incluída no memorandum e apoiada pelo Governo grego. Mas hoje mesmo, nas vésperas da sua realização, o Governo anunciou que este referendo é ilegal e mandou os juízes supervisionar os locais de voto. Se o referendo terá condições de ser realizado é ainda uma incógnita. Em todo o caso, mostra como a vontade popular fragiliza o Governo que tem de tomar uma posição de força para evitar que se realize.

O pânico a Piketty e a direita sem ideias


Por Paul Krugman

O novo livro do economista francês Thomas Piketty, “O capital no século XXI”, é um prodígio de honestidade. Outros livros de economia foram um sucesso nas vendas, mas diferentemente da maioria deles, a contribuição de Piketty tem uma séria erudição, capaz de mudar a retórica. E os conservadores estão aterrorizados.

Por isso, James Pethokoukis, do American Interprise Institute, adverte na revista “National Review” que o trabalho de Piketty precisa ser refutado porque, do contrário, “se propagará entre a clerezia e dará nova forma ao cenário da economia política em que serão travadas todas as futuras batalhas sobre política”.

16 maio 2014

Acredita, se não tiveres nojo



«Amanhã a Troika vai embora, mas deixa esta dívida atrás de si. Com ela, a garantia de visitas regulares do FMI, que nunca confia o seu dinheiro a mãos demasiado democráticas. Com ela, um plano detalhado de pagamentos, com metas e velocidades previamente acordadas com o governo.

Amanhã a Troika vai embora mas deixa um outro pacto de regime em sua substituição: o Tratado Orçamental. É a austeridade feita lei e a garantia da ingerência de Bruxelas sempre que isso não for cumprido.

Amanhã a Troika vai embora mas os salários não são devolvidos, nem o SNS, nem as pensões, nem os impostos, nem os empregos, nem o futuro.

Amanhã, a Troika vai embora. E cá vai, um brinde de Murganheira ao novo 25 de Abril! Não tens nojo?»