27 junho 2014

ai, desarranjadas é que não


A agressão diária do capitalismo, a emigração, a destruição do SNS, a doença da escola pública, a precariedade espraiada, os risíveis contratos de trabalho, o desemprego, as parcas reformas, os salários inexistentes, um país sem dignidade e a perder a esperança no futuro. Nada disto é novidade, como não é novidade que ainda há quem tente mudar de futuro perante a lumpenização do Estado que as políticas neoliberais vão logrando por aí. Por isso, urgem novas formas de activismo, surgem novas reconfigurações da esfera política, perante um ataque sedento dos fanáticos neoliberais e perante as organizações e reorganizações de quem defende o estado social e se vai mexendo como pode, inventando e reinventando formas de luta. Com tanto em jogo, ninguém vira costas à luta.

Ah, excepto a JSD.

A JSD, perante um país a arder, promove workshops de auto-maquilhagem e de matraquilhos. Se não tiverem que fazer este fim-de-semana, apareçam. Se tiverem que fazer, cancelem e apareçam na mesma. Podem roubar-nos os salários, mas aprenderemos finalmente a usar o lápis dos olhos. Podem roubar-nos os empregos, mas conseguiremos, pela primeira vez, marcar um golo sem ser por acaso. Se vierem pauperizar-nos mais, arrancar-nos a dignidade a ferros, destruir-nos a educação, a saúde, os projectos de vida e futuro, sorriremos, com lábios sensuais pintados, muito felizes, talvez por já estarmos do lado em que, pelo empobrecimento alheio, já está tudo bem.

26 junho 2014

A venda de ilusões como motor do capitalismo


Acompanhar as notícias é difícil numa sociedade dominada pelo poder do capital. Ver um noticiário na TV, ler um jornal ou ouvir as notícias na rádio implica receber um misto de notícias, propaganda e publicidade, não sendo claro qual é qual. Certo é que para cada problema aparece uma solução mágica, que envolve um comportamento individual. Assim “aprendemos” que o desemprego se resolve com empreendedorismo, a pobreza se resolve com caridade e, de uma forma geral, a maioria dos nossos problemas resolvem-se comprando coisas.

25 junho 2014

França: a arte que se mobiliza pelos seus direitos do trabalho

Artistas e técnicos protestam nus contra a nova lei

Nos últimos dias soube-se da luta dos intermitentes em França contra o Governo por causa das novas regras de proteção no desemprego. Não são só os profissionais do espetáculo que são afetados pela nova lei que obriga os trabalhadores a descontar mais e a esperar mais tempo pela prestação depois de estarem desempregados. O primeiro-ministro Manuel Valls ainda não recusou a assinatura desta lei, mas já foi prometendo compensar a perda de rendimento com outras medidas. 

Há semanas que estão em greve e agora já são vários os festivais que estão em perigo de não se realizarem.

Nesta luta pelos seus direitos do trabalho, artistas e técnicos dão as mãos e o exemplo.

24 junho 2014

O Rock Rendez-Vous e o dever da memória



Demasiadas vezes lamentamos a forma como destruímos a nossa memória coletiva. Passamos nas ruas e nas cidades e não reparamos na forma como os objetos e os lugares transportam consigo a história e a memória das nossas sociedades. Parte do património histórico, cultural e social vai sendo esquecido ou destruído, restando-lhe um lugar de sobrevivência confortável nos registos historiográficos que se vão empilhando em bibliotecas.

Por estes tempos apercebi-me de como muitos dos símbolos que marcaram de forma inquestionável os anos 80 e as transformações socioculturais de Portugal nessa época têm sido votadas a uma relativa invisibilidade ou, em alguns casos, a uma destruição que se traduzirá no esquecimento. Foi essa realidade que encontrei ao começar a estudar o Rock Rendez-Vous, uma das mais importantes salas de espetáculos lisboetas. Um espaço onde nasceu e explodiu o novo rock português, mas também onde se alastrou uma nova cultura urbana e juvenil que transformaram de forma acelerada e particularmente intensa as sociabilidades dessa década.

Passos Coelho diz ver estabilidade onde só há precariedade

Na sexta-feira passada, dia 20 de Junho, Passos Coelho afirmou na Assembleia da República que “não há precariedade, mas há estabilidade laboral”. Por coincidência, na véspera houve um colóquio organizado pelo Observatório sobre as Crises e as Alternativas com intervenções que contradisseram totalmente o Primeiro Ministro.
Saliento a apresentação de Maria da Paz Campos Lima, Professora Auxiliar no ISCTE, que analisou  a reconfiguração do emprego em Portugal desde a intervenção da troika. Assistimos, desde 2008, a uma desvalorização salarial com cortes de salários e aumento do horário do trabalho de 35 para 40 horas semanais sem compensação salarial, redução das férias e feriados (o que significa que houve mais trabalho não pago), acompanhado de uma redução da compensação por trabalho extraordinário. Simultaneamente, houve uma redução da proteção no emprego (com a facilitação dos despedimentos) e redução da proteção no desemprego.
Estas alterações foram acompanhadas de outra, de enorme importância, a alteração estrutural do sistema de negociação colectiva. A negociação colectiva pode passar a ser negociada por comissões de trabalhadores de Acordos de empresa sem mandato sindical, a sua extensão sofreu restrições e o período de caducidade foi reduzido. Estas medidas tiveram um resultado: a redução drástica no número de trabalhadores abrangidos por contratações coletivas.

22 junho 2014

O prisioneiro 4859, visto pelos Sabaton



Em 1940, Witold Pilecki é capturado pelos nazis em Cracóvia e enviado para o campo de concentração de Auschwitz. Os nazis não faziam a menor ideia, nem tinham como fazer, que Pilecki não tinha sido apanhado ao acaso mas antes se deixou capturar para poder infiltrar-se no campo de concentração. Usando uma identidade falsa, o soldado da resistência e criador do Exército Secreto Polaco pos em risco a sua vida para conseguir descobrir o que se passava em Auschwitz e organizar uma resistência a partir de dentro.

20 junho 2014

O BES e Angola, o BES e o PSD, PSD e Angola

O BES está em convulsão interna e vai ter de substituir o seu conselho de administração. Salgado sai por causa de "irregularidades graves", dívida escondida e coisas afins. Mas deixa lá o seu braço direito, Amílcar Morais Pires, arguido num caso de abuso de informação na compra de ações da EDP.





Para chairman, o Grupo Espirito Santo propõe Paulo Mota Pinto, presidente do conselho de fiscalização das "secretas", deputado do PSD e atualmente do conselho de administração da ZON.

Ainda para a administração vai Rita Barosa, secretária de estado do Ministro Relvas... do PSD.


19 junho 2014

A maturidade dos Linda Martini




Não é fácil encaixar os Linda Martini num único e unívoco estilo de música. Mas é muito fácil classifica-los como uma das melhores, mais criativas e inovadores banda da cena musical portuguesa. Os Linda Martini são um dos principais grupos do novo rock português e não envergonham de nenhuma forma a geração que fez nascer e crescer o rock em Portugal. Venceram três vezes o prémio de disco do ano pelos leitores da Blitz com “Os olhos de Mongol” (2006), “Casa Ocupada” (2010) e “Turbo Lento” (2013) e têm enchido todos os recintos a que se dirigem. Os elogios de pessoas como Henrique Amaro da Antena 3 ou Zé Pedro dos Xutos e Pontapés não são para menos. A banda é uma mistura original de influências de post-rock, rock alternativo, post-hardcore, punk e outros estilos e combina uma explosão de criatividade e inovação em cada disco e concerto que fazem.

Há meia dúzia de dias comprei o novo álbum “Baú”, distribuído com a Blitz. Um disco de “inéditos e raridades”, com novas versões de vários temas de outros discos e com sonoridades que foram ficando por editar no meio do processo criativo que foi dando origem aos vários álbuns. É uma álbum de maturidade. Nestes dez anos como banda, os Linda Martini, que começaram no circuito independente, surpreendem pela solidez de uma música multifacetada, pela capacidade de brilhar em vários tons e ritmos e por uma enorme qualidade de composição e arranjo dos temas. Vale a pena ouvir. Ainda há bom rock em Portugal. Este Baú é mais uma prova disso. 

18 junho 2014

Eucaliptal à sombra do Estado

O governo acaba hoje de confirmar mais um benefício fiscal à Portucel-Soporcel, como troca por um investimento de 56 milhões de euros da empresa na fábrica de pasta de papel em Cacia. Na distopia neoliberal tudo faz sentido, porque as palavras não têm significado: o mercado é perfeito para a propaganda, mas o Estado faz o trabalho sujo de garantir renda à "iniciativa" "privada". Portugal é o país com maior área de eucalipto plantado do mundo, tendo o actual governo liberalizado a plantação de eucaliptos no território. Viva o mercado livre!

17 junho 2014

Um Tratado contra o medo que nos engole (I)

Medo e desespero. Em Tempos Interessantes: uma vida no século XX (2005), Eric Hobsbawm conta-nos como foi imune a estes sentimentos nos anos do pré-guerra, chegando a uma explicação simples: a ação política comia o medo. Nos anos trinta, a radicalização de alguns sectores estudantis ingleses, dos quais fazia parte Hobsbawm, beneficiava de uma combinação poderosa: a identificação de um inimigo e dos que colaboravam na recusa em combatê-lo, o nazismo e governos britânico e francês respectivamente; um campo de batalha, a Espanha republicana; e a certeza num outro mundo possível, ideologicamente e programaticamente compreensível através do socialismo.

A transposição histórica desta tríade de combate para os nossos tempos não cumpre mais que um exercício de triste constatação: os campos de batalha escasseiam, a capacidade de desnudar o inimigo comum embate na mistificação da crise e das suas origens, as certezas num outro mundo vacilam perante o recrudescimento da luta social. Saber ler os sinais que nos chegam é perceber o medo que nos vai engolindo.