24 julho 2014

Os donos disto tudo


O DDT – Dono Disto Tudo, nome de guerra de Ricardo Salgado — viu fugir-lhe o tapete debaixo dos pés ao não conciliar as vontades dentro da sua família e dos principais accionistas do Grupo Espírito Santo. Quebrou-se o silêncio dourado dos negócios de sempre. O sacrifício d’ “O” banqueiro faz-se para que nada se tenha de alterar e para que, uma vez mais, pareça que os problemas da banca e da finança são iniciativas individuais e não práticas sistemáticas.

O BES entre a política e os negócios

Costuma-se dizer que há imagens que valem por mil palavras. Neste caso, há caras que valem por mim palavras. Nesta imagem, mostram-se os rostos dos antigos Ministros e Secretários de Estado que passaram pelo BES desde o 25 de Abril. Os dados aqui trazidos pelo Expresso constam do livro "Os Burgueses" da autoria de Francisco Louçã, João Teixeira Lopes e Jorge Costa, com a colaboração na investigação de Adriano Campos e Nuno Moniz. É um levantamento de dados importantíssimo e que não pode deixar ninguém indiferente. 


22 julho 2014

Onde está o rigor, quando se considera que as temáticas das desigualdades e das imigrações já foram esgotadas?

No momento em que cientistas, académicos, Reitores e responsáveis de várias áreas intensificam as críticas à avaliação dos Centros de Investigação, retomo uma carta aberta assinada por algumas as principais referências na afirmação da sociologia em Portugal a seguir ao 25 de Abril. Uma carta que me honra porque vai ao combate. Assinaria sem hesitar. 

"Senhor Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia:

Numa conjuntura marcada por reiteradas preocupações, dos mais diversos setores disciplinares, institucionais e ideológicos, sobre cortes drásticos no financiamento público de I&D, associados a tropelias sucessivas através de concursos para investigadores e para atribuição de bolsas em que, sistematicamente, as ciências sociais têm sido particularmente maltratadas, esperar-se-ia, por parte da FCT, uma correção dos erros e uma preocupação acrescida com a qualidade dos processos. Afinal, a incorporação dos erros no aperfeiçoamento dos caminhos possíveis, através do debate crítico, coletivo e organizado, é uma das características que liberta a ciência das armadilhas da arbitrariedade.

Assim, uma política científica sustentada exige respeito pelas regras mais elementares dos sistemas de avaliação: rigor e isenção. Ora, os signatários desta carta aberta, provenientes de diversas instituições de ensino superior, consideram que tais requisitos estiveram flagrantemente ausentes no recente processo de avaliação das unidades de investigação do sistema científico nacional, nomeadamente ao excluírem da segunda fase uma das unidades de I&D de referência nas ciências sociais em Portugal: o CIES (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia) do ISCTE-IUL (ver resultados da avaliação aqui: http://www.cies.iscte.pt/np4/newsId=841&fileName=Posi__o_do_Cies_sobre_o_processo_de_aval.pdf

Treze indícios da coerência de Frankie Chavez


Haverá poucos instrumentos musicais tão famosos como as guitarras. Talvez por isso seja tão difícil alguém destacar-se não como um bom guitarrista, mas como um guitarrista realmente original e que introduz algo novo além de uma boa noção técnica. Creio que Frankie Chavez é bom exemplo disso: combina a noção técnica dos melhores guitarristas mas apresenta-nos uma sonoridade suficientemente original para poder ser considerado um dos melhores guitarristas portugueses da atualidade. 

Este seu terceiro disco, depois do homónimo "Frankie Chavez" e do original "Family Tree", combina os bons vícios do formato "one man band" que seguiu até este álbum e alimenta uma maturidade no seu percurso que lhe permite entrar em incursões mais pesadas e rápidas, sem perder a essência de uma música fluída que trespassa a influência country, blues, blues-rock, rock, música tradicional portuguesa e outras coisas difíceis de encaixar. Vale a pena investir nas treze músicas em que ele se concentrou nos últimos anos. Sabem muito bem e indiciam uma carreira sólida e sobretudo muito coerente. 




20 julho 2014

O PCP e a discriminação dos ciganos: a história repete-se duas vezes

Sem casa, sem direitos básicos e sem dignidade. Assim foi a vida, durante vários anos, de dezenas de ciganos que habitavam um descampado nas traseiras do Castelo da Vidigueira. O caso é a metáfora de tantos casos: da miséria escondida nas costas da opulência, do que não se vê e por isso não existe. Há algum tempo, perante a pressão de organizações nacionais e internacionais, a autarquia decidiu fazer o óbvio: colocou estas pessoas num espaço, com a promessa de realojamento. Podia ter sido uma história triste com um final decente. Podia, mas não foi.

Soube-se recentemente que a mesma autarquia que lhes atribuiu este espaço (um barracão precário, sem cozinha ou casa de banho) decidiu unilateralmente destruí-lo. Os pormenores da história são um filme que já nos habituámos a ver: as máquinas que entram pelas habitações, os polícias armados que impedem os habitantes de recolher os seus últimos bens, as lágrimas de quem perdeu o pouco que tinha. Num país em que o racismo vive mascarado, a violência física e simbólica contra as comunidades ciganas nunca foi escondida pelo Estado. Mas há aqui uma diferença: é que, no caso da Vidigueira, a autarquia que ordena o despejo tem maioria absoluta do PCP. E, conhecendo o património de luta do PCP pelos direitos fundamentais, este dado torna o caso ainda mais insuportável.

19 julho 2014

Momento "Inimigo Público" no Expresso


Uma das primeiras medidas da nova gestão laranja do BES foi substituir a direção de comunicação e marketing de Ricardo Salgado. Resta saber se este anúncio, publicado na mesma semana em que as empresas do Grupo Espírito Santo falharam os pagamentos aos seus credores, já é da responsabilidade da nova equipa ou se se trata da mensagem de despedida da antiga…

18 julho 2014

A justiça tem pressa

Já sabemos há muito tempo que estamos em lados opostos. E sabemos que, do outro lado, se defende um caminho que leva à pauperização de tantos para o enriquecimento de tão poucos. Sabemos que nos têm mostrado quantos pobres são precisos para se fazer um rico, respondendo agora à pergunta que Garrett fez há tanto tempo. Mas há alturas em que a dualidade e o maniqueísmo não são vistos de acordo com um filtro ideológico, mas de acordo com birras, indecência e, naturalmente, falta de vergonha na cara.

Refiro-me a uma notícia publicada no i, que, por sua vez, se refere a um projecto de lei do Bloco de Esquerda que foi chumbado em comissão. O projecto do Bloco propõe que seja o não consentimento a definição central do crime de violação, e não a prática do acto sexual por meio de violência. Assim, é “no 'não consentimento' que se configura o atentado à autodeterminação e liberdade sexual, e as demais formas de violência só podem ser entendidas como agravantes". O projecto avança ainda para a qualificação da violação como crime público.

17 julho 2014

Do governo da ansiedade


Sobre a crise no Grupo Espirito Santo, tem-se apontado muito o dedo à inércia das entidades supervisoras. Como foi possível que passivos de milhões não fossem detectados e considerados graves, tendo em conta as interrelações das empresas da holding e o peso que o contágio da dívida e da desconfiança dos mercados de umas para as outras teria na economia nacional e europeia?
E já agora, outra vez, o que andava o banco de Portugal a fazer até o buraco negro no BPN se tornar público? E no caso do BPP?

Estas são as perguntas que toda a gente tem feito e que a esquerda também continua a fazer, mas que, sendo válidas num determinado quadro mental, não devem bloquear uma outra mais fundamental, sobre se estamos a fazer as perguntas certas.

Estas perguntas pedem respostas dirigidas a melhorar o sistema de supervisão e regulação do capitalismo financeiro. O dedo que me interessa apontar aqui às entidades reguladoras e supervisoras não é à dona Inércia no Banco de Portugal, mas à extrema actividade, diria mesmo activismo, destas instituições.