20 janeiro 2015

Mitos gregos


Dois mitos dominaram esta última semana de campanha eleitoral grega. E os seus cantos já se ouvem em Portugal.

1. O mito de Cronos - Tal como o Deus do tempo, que devorava os seus próprios filhos, o Syriza estaria em processo de autofagia, devorando o programa político que antes construíra. O síndrome de social-democratização galopante ilustrou as manchetes internacionais, fielmente reproduzidas pela imprensa portuguesa e curiosamente propagadas por alguns militantes do PCP. 

Este mito alimenta-se do analfabetismo político. O programa de Salónica, apresentado em setembro por Alexis Tsipras, é claro na proposta: um mandato popular para enfrentar os credores e um plano imediato de reconstrução nacional que ponha fim à austeridade.

Significa isto que um governo Syriza enfrentará, logo a partir do dia 26, a crise humanitária que se instalou no país: 300 mil famílias terão acesso a electricidade gratuita, protegendo as pessoas do inverno grego e da especulação energética; milhares reconquistarão o direito à habitação, através dum apoio efetivo ao arrendamento; Mais de 1 milhão e 200 mil pensionistas voltarão a receber o subsídio de natal, tão essencial no combate à pobreza; milhares de desempregados não serão mais perseguidos pelas dívidas à segurança social e as famílias terão as suas casas protegidas da ganância bancária. Este plano reverterá a favor do trabalho o que tem sido dado ao capital, com o impacto na criação de emprego e no aumento do salário mínimo (como aqui explica o João Camargo), associado a uma reforma fiscal corajosa.

19 janeiro 2015

Charlie Hebdo e as palavras que contam

Passaram quase duas semanas sobre os atentados no Charlie Hebdo. A expressão da solidariedade que se seguiu é um sinal de esperança num tempo de desesperança. E mesmo que a lista de convidados de François Hollande inclua quem tenha transformado a sua presença numa caricatura das suas ações, o peso dos milhões que percorreram as ruas de Paris balança o mundo para o lado certo.

A discussão pública gerada em torno do massacre é também o sinal das contradições deste tempo. Foi assim na viragem do século, é assim agora. Porém, o debate sobre o futuro da Europa escreve-se hoje nas entrelinhas do consenso forçado pela condenação dos atentados. E, neste debate, as palavras contam mesmo.

17 janeiro 2015

Francisco Louçã: sobre os despedimentos na TAP


16 janeiro 2015

"Para acabar de vez com a Cultura…"

Não, não se trata de mais uma investida contra a produção cultural, nem sequer de uma diatribe obscurantista contra os seus agentes. Nem mesmo se reitera o disfarçado abandono da coisa cultural ao corredor burocratizado e amorfo de uma despromovida Secretaria de Estado. Trata-se, sim, de uma alusão. E nessa alusão uma maiúscula, no singular musculado de uma só palavra – “Cultura” –, que se propõe combater, minuscular, pluralizar…

Para acabar de vez com a cultura foi o título da tradução portuguesa de um conjunto de textos de Woody Allen. A justificação de tal título prende-se, talvez, com a índole irónico-absurda dos textos do realizador, imbuídos de uma dinâmica – cultural, hélas! – potencialmente destrutiva, irreverente, mas certamente marginal face ao sacrário intocável em que se nos apresentam as grandes narrativas culturais e os seus sujeitos. Da Filosofia à Literatura, da Música à História recente, nada lhe escapa, munido de uma espécie de poder caricatural de irreverência e mordacidade. Na verdade, o que está em causa é uma espécie de retoma da tradição a partir das suas margens, fora dos padrões que a legitimam, reequacionando discursos de uma espécie de não-lugar onde se mitigam dogmas, verdades instituídas, rochedos de conservadorismo.


É aqui, no cruzamento entre o que é mais propriamente criativo na palavra “cultura” e a sua capacidade de memória e de prolongamento do que já foi, que formas outras de expressão e de significado se inscrevem enquanto fenómenos culturais, numa anti-Cultura reparadora e certeira. É também a partir desta margem, deste reduto exterior e de certa forma indomesticável, que hoje escolhemos chamar à liça, para acabar de vez com a Cultura, a voz e as palavras da Capicua, no modo como nos ensina, a partir de “A mulher do Cacilheiro”, que a voz excluída, nas muitas exclusões que uma voz pode conter, encerra em si mesma o silêncio dos séculos e a mordaça de todos os dias. 

A roleta grega e as mistificações de Manuel Villaverde Cabral




Só posso ter respeito pelo percurso académico de Manuel Villaverde Cabral. É precisamente por isso que não posso fazer qualquer reverência às prosas políticas e ideológicas a que se tem dedicado nos últimos anos e sobretudo nos últimos meses no Observador. Esta semana o seu raciocínio foi o cúmulo: consegue desenvolver um argumento inteiramente correto, com pressupostos politicamente irracionais.

O argumento do sociólogo é simples mas muito coerente: o futuro da Europa está verdadeiramente em aberto depois das eleições gregas e do significado que elas tenham nas restantes eleições que vão acontecer em 2015. O argumento está correto mas a explicação errada. É que para Villaverde Cabral, a roleta grega não abre esperança numa possibilidade de reversão das políticas de austeridade mas sim num temível fim da União Europeia e da moeda única. A explicação é simples: em 2015 estamos na eminência ou da obediência cega à austeridade, ou da morte de qualquer perspetiva política europeísta. A escolha a que o autor nos interpela resume-se de forma simples: ou aceitamos morrer da austeridade ou aceitamos a morte da europa. Felizmente, há mais vida além do simplismo.

Villaverde Cabral sabe tão bem como qualquer cientista social que quem quer fazer um debate na posição do cartomante que adivinha o futuro dos processos sociais só pode utilizar a futurologia como uma forma irracional de esgrimir argumentos. Neste caso, a forma mais irracional de fazer este debate é essa mesma: não discutir os conteúdos concretos da política em jogo e mistificar o debate com as supostas, previsíveis e inquestionáveis consequências das livres escolhas dos povos.

15 janeiro 2015

Esqueçam tudo o que escrevi



Há, na história política brasileira, uma lenda urbana que tem como protagonista o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC). Diz quem a ouviu que FHC terá proferido uma frase lancinante numa reunião com empresários. Corria o ano de 1993 e FHC preparava a sua candidatura pelo Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB) às eleições presidenciais do ano seguinte. Questionado sobre a fidelidade às suas teses sociológicas, escritas na tradição da crítica ao subdesenvolvimento e dependência económica, FHC atirou com um desastrado "esqueçam tudo o eu escrevi". Estava lançada a maldição. Ao longo dos seus dois mandatos, o ex-presidente renegou a paternidade da frase por diversas ocasiões. Mas a cada medida governamental que se inscrevia no cânone neoliberal, mais a frase se ajustava ao destino daquele que chegou a ser considerado o porta-voz da terceira via na América Latina.

Em Portugal, o poder a quem o exerce, a teoria a quem o contradiz, parece ser a regra. Poucos os que governam respeitando o seu pensamento de cátedra anterior. Mas as expectativas, só as perde quem as teve. Eduardo Vítor Rodrigues (EVR) é um sociólogo português com vasta produção no campo das desigualdades e exclusões sociais. Combateu desde o princípio a longa cruzada de Paulo Portas no ataque aos beneficiários do Rendimento Mínimo, hoje designado de RSI. Membro do Partido Socialista, nunca abandonou a produção do conhecimento sociológico em favor do que chama de "pensamento estratégico territorial" das políticas públicas.

EVR assumiu, em 2013, a presidência da CM de Gaia, uma das mais endividadas do país e prisioneira de uma forte rede clientelista montada por Luís Filipe Menezes. Não se trata aqui de fazer juízo sobre o seu tempo de mandato, mas de indagar sobre os contornos de um pequeno episódio. No dia 12 de janeiro, EVR inaugurou, na qualidade de Presidente da Câmara, o hospital privado de Gaia, propriedade do grupo Trofa Saúde. No seu discurso, EVR afirmou que "Este investimento tem um racional de resposta num serviço público, numa demonstração de dedicação à causa da saúde, com o objetivo de rentabilizar o serviço e criar novos postos de trabalho" acrescentando que "o conceito de serviço público pode e deve ser cumprido por quem se disponibiliza a cumprir serviço público e não por quem diz que é público".

A velocidade de Whiplash

Este tem poucos meses e é imperdível. É apenas o segundo filme dirigido pelo jovem realizador Damien Chazelle mas tem uma criatividade de génio. Nunca se perde o fio do filme e nunca nos deixa abrandar a velocidade. Miles Teller e J. K. Simmons assumem excelentes prestações representando, respetivamente, um jovem aspirante a um ser dos maiores músicos e bateristas de jazz da atualidade e um severo maestro de jazz da mais importante escola dos Estados Unidos da América. A banda sonora é grandiosa e digna de estatuto próprio. E mais não conto, para não estragar o ritmo.


14 janeiro 2015

Por uma vitória da Grécia e dos povos da Europa

A catástrofe humanitária em curso na Grécia terá um ponto de viragem no dia 25. Nesse dia, se se confirmarem as sondagens que dão a vitória ao SYRIZA, as eleições podem colocar o país, destroçado pela austeridade da troika e de sucessivos governos neoliberais, no caminho da soberania democrática. Será um momento decisivo para todas as pessoas que vivem na Grécia.

Também será um momento importante para quem vive em Portugal, na Irlanda e em todas as sociedades sufocadas por uma farsa económica. Os programas de ajustamento estrutural fabricaram sociedades divididas. Se não lutarmos contra isto, essas sociedades entrarão num colapso definitivo e irreversível. Este não é o único caminho. A política pertence ao domínio dos seres humanos e não ao domínio da física.

A chantagem exercida pelas instituições europeias e pelo governo de coligação sobre quem tem o direito de exercer o voto livremente é inaceitável, mas tem uma vantagem: mostra-nos que temos o dever de assumir uma posição. Essa posição é clara: só um governo de esquerda pode destruir o bloqueio da dívida e da destruição social. O direito soberano de decidir sobre o destino colectivo pertence a quem vive na Grécia; o dever solidário de dizer o que pensamos e queremos pertence a quem vê estas eleições como mecanismo de desbloqueio.

Se a esquerda vencer, a dívida deixará de ser sagrada. Se a esquerda vencer, o euro e o Tratado Orçamental deixarão de ser sagrados. Se a esquerda vencer, o destino colectivo deixará as mãos de quem só gosta de eleições e liberdade quando as decisões são tomadas em gabinetes fechados por peritos convencidos da sua superioridade e oferecidas, com um laço em cima, a quem persiste numa luta ingrata pela sobrevivência.

Esse destino colectivo voltará às mãos a que nunca deixou de pertencer: a quem vive na Grécia. Uma vitória da esquerda significará a vitória sobre os tabus que nos impõem a partir do eixo Bruxelas-Frankfurt-Berlim. E, se a esquerda vencer, uma frente internacionalista unida ganhará força para questionar as verdades adquiridas dos mercados, das finanças e da especulação. As mesmas verdades adquiridas que nos impõem todos os dias.

Se a direita vencer, essa terá sido a decisão da maioria dos eleitores gregos. Mas não terá sido uma decisão livre de condicionamentos. A Comissão de Juncker não se manifesta acerca do escândalo Luxleaks, mas vai a Atenas para amedrontar pessoas e famílias que, ao longo de anos, têm resistido ao novo europeísmo, autoritário e gerador de miséria. O BCE de Draghi resgata bancos privados, mas promete apertar o garrote sobre um futuro governo de esquerda. O FMI de Lagarde reconhece não saber como ajudar a Grécia a recuperar, mas sabe que não quer a esquerda no poder.

Estão com medo. Ainda bem. Quer dizer que, afinal, há alternativas. Sabemos que essas alternativas podem não ir tão longe como alguns gostariam e irão mais longe que o desejado por alguns aliados de circunstância. É bom que assim seja. A política foi feita para definirmos, em conjunto, o nosso destino colectivo. Não foi feita para aumentar os lucros de empresas transnacionais e fundos de investimento. Depois destas eleições, os aliados de circunstância podem inventar as acrobacias que quiserem: se a esquerda vencer, a dívida e o euro já não serão ícones sagrados.

Quem vive na Grécia decidirá. Nós já decidimos de que lado estamos. Não vamos criar nenhum movimento, nem plataforma. Somos apenas um grupo de amigos que decidiu divulgar este pequeno texto.

Helena Romão
Joana Lopes
Luís Bernardo
Mariana Avelãs
Miguel Cardina
Nuno Bio
Rita Veloso

30 anos de Rock in Rio, o verdadeiro

Há 30 anos, uma enxurrada de gente transbordava aquela que ficaria conhecida como Cidade do Rock. A música brasileira florescia sem regras, o festival estava longe de se tornar marca. E o palco era todo dele.



13 janeiro 2015

A luta contra o TTIP continua

Foi publicado hoje o relatório sobre a consulta pública ao mecanismo de resolução de conflitos entre investidores e Estados do TTIP.

A comissária Malmström é explícita:
“The consultation clearly shows that there is a huge scepticism against the ISDS instrument”. 
E acrescenta uma nota cómica:

12 janeiro 2015

Sérgio Monteiro tem condições para ser Secretário de Estado?

  • «Enquanto administrador do consórcio privado Elos, Sérgio Monteiro  negociou e assinou um empréstimo, com contratos swaps associados, para construir o troço da linha de TGV Poceirão-Caia. Já como secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, negociaria a transferência desses swaps para a Parpública, com perdas atuais de 152,9 milhões de euros.»

  • Caso AELO (Auto-Estradas do Litoral Oeste): Nos documentos desta PPP tornados públicos, duas assinaturas destacam-se das restantes. A do então administrador responsável pela participação do Banco Caixa BI, o actual Secretário de Estado, Sérgio Monteiro, e a da sua futura assessora no governo, Teresa Falcão, responsável pela elaboração jurídica do contrato em representação da Vieira de Almeida e Associados.
  • Caso Teresa Falcão: Uma dessas assessoras de Sérgio Monteiro foi Teresa Empis Falcão, contratada em exclusividade até 22 de janeiro de 2014, sendo exonerada com louvores do secretário de Estado, que salientou o "papel determinante que teve para o sucesso do Programa de Privatizações constante do Memorando de Entendimento acordado entre o Estado Português, o FMI, o BCE e a CE.". Todavia, a ausência de Empis Falcão do Ministério do Ministério da Economia durou apenas um dia. A 23 de janeiro, foi assinado um contrato de prestação de serviços por Carlos Nunes Lopes, chefe de gabinete de Sérgio Monteiro, garantindo o pagamento de 31 mil euros a Empis Falcão por serviços jurídicos.

Baga

Quatrocentas mil pessoas internamente deslocadas pela catástrofe em desenvolvimento no norte da Nigéria. O Boko Haram continua a destruir uma região inteira, depois de, há um mês, ter sido noticiado, pela IRIN, que o grupo obrigou quase cem mil pessoas a fugir para o Níger. O ACNUR também mostra como a situação está a piorar desde 2013. O IDMC não disfarça a gravidade da situação, mesmo em aidspeak.

Isolation is not only problematic for northern Nigeria but also holds important regional and international implications.  To start, it confounds external understanding of the complex dynamics unfolding on the ground. This includes assessing the relevance of Boko Haram within the surge of Islamic militantism across the Sahel. While Boko Haram originated and still largely exists as a homegrown insurgency, it has increasingly taken on international features. The group is now reported to have fighters from Benin, Chad, Mauritania, Niger, Somalia, and Sudan. The funneling of these combatants into northern Nigeria is likely to increase as al Qaeda in the Islamic Maghreb and its militant partners are forced from their redoubts in northern Mali. Boko Haram’s dramatic jump in capacity in 2011, its declared association with al-Qaeda, and the adoption of tactics used in the global Salafist playbook, such as the use of suicide bombers and improvised explosive devices, suggest active influences and support from the international jihadist network. (aqui)
Uma citação que ilustra muita coisa, além de mostrar como as minhas discussões com que não é charlie, nunca foi charlie, nunca será charlie e nem sabe quem é esse charlie são mãos cheia de nada.

11 janeiro 2015

Três razões para não estar na "Marcha Republicana" de Paris


1. Ao contrário das manifestações que ocorreram no próprio dia do atentado ao Charlie Hebdo, esta é uma manifestação capturada. Foi inicialmente pensada, logo no dia 7, a partir do acordo entre dirigentes do Partido Socialista, do Partido Comunista, dos Verdes, do Mouvement Républicain et Citoyen e do Parti Radical de Gauche, convidando partidos e sindicatos a uma participação ampla. Recebido por Hollande, Sarkozy tratou de impor os termos: "É preciso que todos os que defendem os valores da nossa sociedade ocidental se unam contra a barbárie", acrescentando "perante a evolução da ameaça, a nossa nação deve aumentar o nível de vigilância e aumentar o dispositivo de defesa do franceses". Ao mesmo tempo, Valls e Hollande multiplicavam-se em apelos à "unidade nacional". A direção e o tom da manifestação estavam dados, e não é bonito de se ver. 

2. A maior prova da domesticação da manifestação é a presença dos chamados "líderes mundiais". Benjamin Netanyahu, David Cameron ou Mariano Rajoy (para citar apenas três) não compareceram à manifestação por se sentirem impelidos por uma pressão popular em defesa da liberdade. Foram porque a legitimação de se poderem apresentar como defensores "civilizacionais" neste momento de comoção é um combustível político da melhor qualidade. Netanyahu irá usá-lo para apertar o cerco aos perigosos extremistas e sub-humanos da faixa de Gaza (que até condenaram o ataque), Cameron no fortalecimento das fronteiras e Rajoy no silenciamento das manifestações em Espanha. O discurso da "defesa da civilização" é uma caixa de pandora, e nós já conhecemos quem é capaz de cavalgar esses males na hora certa.

3. Ainda assim, "é com o povo que nos encontramos e disputamos a vontade coletiva". Este argumento tem muita força. Afinal não desfilamos nós com Freitas do Amaral contra a guerra do Iraque, não disputamos a frente da manifestação da geração à rasca com os tipos do PNR? Mas eu pergunto, estamos a disputar quem e para o quê? A herança tricolor da revolução francesa é património que nos basta nesta batalha? O próprio Cohn-Bendit, espertalhão que é, afirmou que se fosse esta uma manifestação verdadeiramente popular seriam os jornalistas e os polícias, as vítimas do ataque, a tomar a dianteira da manifestação, e apenas esses. E não é que tem razão? Dir-me-ão que as vítimas fomos todos nós e a nossa liberdade de expressão. Mas então comecemos por juntar esses "todos nós" e rápido, pois até ver, este foi o dia em que uma manifestação pró-Palestina foi proibida nas ruas de Paris, este foi o dia em que, na mesma cidade, 11 ministros do Interior se reuniram para pôr em cima da mesa o acordo de Schenguen e clamar por uma cimeira contra o extremismo em Washington. Neste amontoado, não vamos conseguir respirar por muito tempo. 

10 janeiro 2015

Dizer o que quisermos, quando quisermos, como quisermos


Será possível? A tragédia do Charlie Hebdo reavivou o debate sobre os limites à liberdade de expressão, que muitos trataram de empurrar para o pantanoso terreno do "choque de civilizações". Mas primeiro, ao humor, cidadãos. Muito se tem falado sobre o conteúdo humorístico do Charlie Hebdo, do seu exagero, da sua indecorosa via para o despropósito. A defesa da alforria do conteúdo, abstraindo-a ao nível de um direito universal, o direito à liberdade de expressão, é uma necessidade que devemos acarinhar, mas não basta. O que importa discutir sobre os limites do humor, ou a sua ausência, é como essa expressão da inteligência humana estabelece-se na disputa dos espaços e tempos sociais.

Se olharmos a longa tradição do caricaturismo francês, percebemos que esse tipo de humor conquistou um espaço próprio na cena política do país, firmando-se, sobretudo, na esfera jornalística. O mesmo acontecerá, em menor ou maior escala, com outros tipos de humor escrito - no mundo lusófono a crónica será a forma principal. Mas ler é perceber. Quando abrimos o suplemento de humor de um jornal ou assistimos a um filme dos irmãos Coen, sabemos o que nos espera, mesmo sem conhecer o seu conteúdo. Esperamos um tempo de inversão do óbvio, um contrasenso da nossa realidade quotidiana expresso pelo exagero, o espalhafato ou a incoerência fina.

Esse tempo, na maioria das vezes, está limitado ao decorrer da ação da leitura ou visualização, que escolhemos de forma individual ou colectiva. As festas da escola, nas quais se pode imitar de forma caricatural os professores no fim da peça de teatro é um bom exemplo dessa demarcação do tempo - depois do tempo de estudo e de respeito pela hierarquia, o tempo do deboche.

Os realistas de uma realidade mais ampla

Ursula K. Le Guin pelas suas palavras, que precisam de ser lidas e ouvidas (hoje e ontem ou amanhã, sejamos bravos, charlies ou deltas).

I think hard times are coming when we will be wanting the voices of writers who can see alternatives to how we live now and can see through our fear-stricken society and its obsessive technologies to other ways of being, and even imagine some real grounds for hope. We will need writers who can remember freedom. Poets, visionaries—the realists of a larger reality.(...)
Books, you know, they’re not just commodities. The profit motive often is in conflict with the aims of art. We live in capitalism. Its power seems inescapable. So did the divine right of kings. Any human power can be resisted and changed by human beings. Resistance and change often begin in art, and very often in our art—the art of words. (...)
(aqui)
 

09 janeiro 2015

Ricardo Cabral Fernandes: Xenofobia e racismo, duas doenças sociais


           
A tentativa de capitalização dos atentados de Paris por Marine Le Pen não se fez esperar. Apresentou a proposta de um referendo sobre a introdução da pena de morte no "arsenal" jurídico francês, utilizando a linguagem bélica que caracteriza o fascismo. Esta linha de discurso apenas dá azo à xenofobia e racismo e vemos as suas consequências nos recentes ataques a mesquitas em França. É um discurso que extravasa fronteiras e em Portugal, infelizmente, também já se manifestou.

Na década de 30 e 40 do século passado, o regime nacional-socialista de Adolf Hitler utilizou os judeus como bode expiatório para a criação de uma nova união nacional, para a criação de um inimigo interno que se responsabilizasse pelas consequências da crise de 1929,  desresponsabilizando o capitalismo e as suas contradições. Exarcebou-se o nacionalismo, essa doença social. Bem sabemos que esse mesmo capital, que fugiu às responsabilidades, lucrou milhares de milhões de marcos com o Holocausto, tanto de judeus como de ciganos, homossexuais ou outros indivíduos que não estivessem de acordo com a sociedade modelo Hitler, o Reich milenar de pureza da raça. 

Ao criar-se um inimigo externo o povo alemão não reagiu ao inimigo interno que o partido nacional-socialista representava para a democracia e respectiva liberdade de expressão. A ascensão da Frente Nacional representa o mesmo perigo para a República Francesa e seus direitos - mesmo que crescentemente erodidos pela austeridade do senhor François Hollande -, mas também para os trabalhadores franceses, comunidade muçulmana e imigrantes. Constitui uma ameaça para todos e é nessa mesma ameaça que deve se sustentar a união e, por intermédio, a luta contra a xenofobia e o racismo e a defesa da liberdade de expressão.

"Lesbian and gays support the miners"

Além de objetos artísticos, os filmes são ótimos objetos sociais. Usamo-los individual e coletivamente para os mais diversos fins, aprendemos com eles e inscrevemo-los nas nossas vidas. Mas há ainda filmes que nos tocam tanto que gostávamos que toda a humanidade os visse. É um desses filmes que vos recomendo: Pride (2014) de Matthew Warchus. 

O filme conta uma história verídica do Verão de 1984, em que Margaret Tatcher enfrenta greves da União Nacional dos Mineiros contra os despedimentos e as condições laborais e sociais dos trabalhadores. Nesse Verão um grupo de ativistas LGBT começa a recolher dinheiro para ajudar a greve dos mineiros. O sindicado sente-se desconfortável com este apoio mas o grupo não desiste. E mais não conto. Apenas que é um filme de esperança que nos mostra que é por tudo estar ligado, que temos que fazer com que tudo se ligue. 

Imperdível. 


Ricardo Cabral: A privatização do Novo Banco

  • «Este é o ponto mais chocante do caderno de encargos. O Novo Banco é um banco com 72,5 mM€ de activos e passivos (a 4 de Agosto de 2014). Portanto, de acordo com o caderno de encargos, permite-se que empresas financeiras de dimensão muito inferior façam uma oferta de compra de um banco que pode ser 725 vezes maior que a empresa financeira adquirente. Tal tipo de alavancagem e risco, se correr bem, permite à empresa adquirente lucros elevados e crescer rapidamente. Se correr mal, de acordo com as regras europeias, muito provavelmente será necessário o “bail-in”, eufemismo que significa que os depositantes e outros credores seriam chamados a suportar os custos de uma segunda resolução do banco.»

08 janeiro 2015

O sono dos justos

Parece que "ser Charlie" é ser hipócrita, em particular quando não se denunciam ataques imperialistas, quando não se expõem as contradições do capitalismo apocalíptico e quando não alinhamos pelo mesmo diapasão em todas as questões acerca das quais só pode haver uma opinião e um grau de coerência ditado por quem nunca, em tempo algum, a perde. Quem caracteriza o Islão como fascismo verde e a NATO como keynesianismo militarizado está nesse campo. Sendo assim, prefiro a consistência Oscar Wilde.

De resto, ficam aqui dois exemplos, com a leitura que lhes associo e é evidente pela escolha.

Sim, é verdade que este tipo de atenção devia ser votado a assuntos que algumas pessoas consideram mais importantes. Mas não é plausível que esta atenção seja hipócrita ou constitua uma instância de lágrimas de crocodilo. Quem defende isto sofre de misantropia grave.

É também evidente que "ser Charlie" é uma distracção criada pelas redes sociais e os puristas poderão sempre optar pela sua recusa. É uma escolha inteiramente legítima. Mas contestar a escolha de quem considera o assassinato de doze pessoas um acto bárbaro, apesar de não ter o mesmo impulso condenatório no que resta do ano, ao apoiar o austeritarismo, ao reprovar a luta dos trabalhadores, ao negar a existência de esquerda e direita, ao recusar a discussão sobre o mérito da permanência no euro, ao aceitar a primazia da dívida sobre direitos humanos, é pouco hábil. Remete para uma impossibilidade concreta: a de manter a mesma atenção equânime sobre todos os assuntos que ocupam a esfera mediática. As capas de hoje não resgatam a imprensa das omissões, muitas vezes politicamente motivadas, de que é culpada ao longo de muitos ciclos mediáticos. Mas não há aqui equivalência: as omissões anteriores não mancham as capas de hoje. Ou seria preferível que os acontecimentos de ontem fossem silenciados?

07 janeiro 2015

Charlie Hebdo: nada muda e tudo se transforma

As doze pessoas mortas hoje, em Paris, são aquilo que importa. Confesso; não sou grande fã da estética Charlie Hebdo, mas respeito a sua história e o seu papel de combate à censura. Porque, de resto, pouco mudará: a islamofobia, na Europa, continuará mascarada, por um lado, pelo orientalismo higiénico e, por outro, pelo racismo desenfreado dos Bernard Lewis, Orianas Fallacis e companhia, que não hesitam em ignorar quase tudo sobre o Islão ou em promover uma etnicização reducionista.

A publicação do novo romance de Michel Houellebecq, que não parece ser brilhante, também pode ser um sinal. Tal como os desenvolvimentos na Alemanha, onde a catedral de Colónia e a Porta de Brandeburgo desligaram as suas luzes para mostrar que o Pegida, um movimento islamofóbico que não pode ser exclusivamente associado a franjas neonazis, não é aceite pela esfera pública alemã. Pena que a indignação não se tenha manifestado desta forma aquando dos Donermorder, da utilização destes e de outros cartazes pelo NDP nas eleições de Berlim, em 2011. O Bild é uma publicação particularmente nojenta e hipócrita: o maior tablóide europeu faz o seu caminho à custa de ódio e não podemos esquecê-lo.

Entretanto, Tariq Ramadan já se pronunciou, tal como o Conselho Francês do Culto Muçulmano. Percebo a atitude, embora seja um sintoma: as comunidades muçulmanas europeias e residentes na Europa não têm a responsabilidade de manifestar o seu compromisso com a democracia porque uma equipa de pessoas com treino e armas de calibre militar, depois de assassinarem doze pessoas, fazem sinais e entoam palavras associáveis ao Islão.

Nada mudará muito. Haverá uma sensibilidade aumentada à incerteza, por parte de quem não encontra inimigos em todas as portas. Aqueles que odeiam continuarão a odiar. Por cá, teremos as cabeças ignaras do costume a falar de coisas que não percebem.