23 março 2015

Então os jovens turcos não dizem nada?



Se há há matéria que o PS poderia assumir, desde já, aqui, neste tempo presente que nos corroí a vida, e não no calendário mágico de António Costa, um compromisso de alternativa, uma sombra que fosse de diferença, é a matéria do emprego.

Ora, tal como nos dizem os Precários Inflexíveis, « O Público de hoje dá conta de que Mário Centeno será um dos economistas que irá ajudar a preparar o programa do PS de António Costa. O jornal apresenta-o como um liberal que tem escrito especialmente sobre o mercado de trabalho com “propostas inovadoras”, mas este assessor especial da Administração do Banco de Portugal é muito mais do que isso.
Mário Centeno estudou em Harvard e é hoje professor de economia do trabalho no ISEG. Recentemente escreveu um ensaio para a Fundação Francisco Manuel dos Santos (dos donos do Pingo Doce) intitulado “O Trabalho, uma visão de mercado”. Nesse livro o economista lança a sua tese: o mercado de trabalho em Portugal está segmentado entre os mais velhos, que estão super protegidos, e os mais novos, que sofrem todos os problemas de um mercado de trabalho pouco flexível. Assim, Centeno apresenta a sua solução: eliminar os “atritos” que impedem o mercado de trabalho de ser mais rápido. Esses atritos são, percebe-se, os direitos dos trabalhadores, que, de acordo com o autor, lhes são prejudiciais.

Alexandra Lucas Coelho: "Um pesadelo para acordar"


1. Enfim bons motivos para celebrar as eleições israelitas: acabou o blablabla sobre o processo de paz, o futuro estado palestiniano, o empenho do governo de Israel, a única democracia do Médio Oriente. A vitória de Netanyahu é o fim da sonsice após décadas de banho-maria. Ele disse, finalmente, que é contra um estado palestiniano; apelou aos “judeus de direita” que corressem a votar contra o “risco” da “quantidade de árabes [israelitas]” habilitados a votar; e um seu ministro sugeriu decapitar os árabes israelitas “desleais” ao estado. Com os dentes assim para fora, fica difícil para a Europa e sobretudo para os Estados Unidos continuar a fingir que há aqui um processo de paz, um futuro estado, um empenho, uma democracia. Não por acaso Obama ainda não ligara a Netanyahu três dias depois das eleições (data em que escrevo), e não por acaso o que entretanto corre é que a Casa Branca pondera, finalmente, apoiar a resolução das Nações Unidas sobre o reconhecimento de dois estados nas fronteiras de 1967. Isto, quando Israel conseguiu manter o status quo durante tempo qb para parecer irrealista voltar às fronteiras de 1967. Se Netanyahu deixa de fazer de sonso é porque já não precisa.

17 março 2015

A “espontaneidade dirigida” em Musgo e Urze


A peça Musgo e Urze esteve em cena de 3 a 14 de Março na Casa dos Amigos do Minho, em Lisboa, e foi organizada por um conjunto de jovens atores e jovens atrizes da Escola Superior de Teatro e Cinema, com direção de Mariana Ferreira e interpretação de Cleonise Tavares, João Pedro Leal, Leonor Wellenkamp Carretas, Mariana Gomes, Mário Coelho, Nádia Yracema, Rita Silva, Sandra Pereira e Victor M. Gonçalves.

O espetáculo coloca-nos perante três ousadias. A primeira foi o facto do grupo não se ter conformado com o conforto da escolha de um autor amplamente popularizado na cena artística portuguesa. Pelo contrário, escolheram um autor pouco falado em Portugal, Michel Vinaver, com um texto começado em 1969, publicado em 1972 e representado pela primeira vez em 1973: Par-dessus bord. Em Portugal este texto apenas tinha sido representado pelo Cendrev, em Évora. Mas a ousadia da escolha não está apenas na dimensão algo desconhecida do autor e do texto em Portugal. Está também na opção por um texto com a complexidade de 60 personagens, 25 locais de representação e que implicaria 7 horas de espetáculo. A responsabilidade e a exigência do trabalho de seleção, corte e reestruturação da coerência do texto que foi apresentado por estes jovens criadores, são dignas de um primeiro elogio.

A segunda ousadia está relacionada com o contexto da peça. O conjunto de jovens que se juntaram para aquele processo coletivo, fizeram-no com imensa coragem e generosidade. Todos eles estudam na ESTC, muitos deles trabalham em simultâneo para conseguirem pagar os estudos e viver, e mesmo assim arriscaram tirar o pouco tempo que sobrava da sua vida para se entregarem a um projeto coletivo sem financiamento. E este é um elogio dirigido: é que, felizmente, a ignóbil ausência de financiamento ao teatro não fez destes atores e destas atrizes um grupo de serventes disponíveis para trabalhar de borla e sem nenhuma relação com o processo de criação para qualquer grupo ou companhia financiada. O que vimos na Casa dos Amigos do Minho foi gente que em vez de escravatura, trabalhou autónoma e coletivamente e não desistiu de arriscar. E como é bom ainda poder escrever isto.

A terceira ousadia foi a escolha do local. É óbvio que a escolha da Casa dos Amigos do Minho não teve apenas que ver com a vontade de ligar a peça à comunidade local. Tem sobretudo a ver com a ausência de financiamento e com os preços das salas. Mas a ousadia é esta: quantas pessoas não desistiriam se tivessem que fazer uma peça numa associação local, com um espaço limitado e sujeitos a todo o tipo de imprevistos decorrentes dos usos e das atividades que as pessoas da associação já davam antes àquele espaço? Jogar com as limitações do espaço, com a precariedade do material técnico e com os imprevistos da dinâmica da associação foi arrojado e digno de registo.

Estão caladinhos e o seu silêncio grita

Leio, com frequência, a secção de opinião do Observador. É um exercício importante. A direita portuguesa, nas suas prismáticas variedades (trauliteira, intelectual, born again e bifana, entre outras), habita por aqueles lados e concentra muitas das preciosidades que talvez tivéssemos de apanhar em blogues perdidos por aí.

A direita portuguesa gosta de se antecipar. Diz que a esquerda é hipócrita. Diz que o povo é uma cambada de gastadores - e os frigoríficos, pá? E os dois carros, pá? E as férias em Punta Cana, pá? Queriam tudo, era? Isso é para os que mandam e os que defendem quem manda. Pois se a economia é como uma casa, pá.

Diz que a democracia e o mercado funcionariam bem, não fosse Portugal habitado por portugueses. Se lessem mais, se empreendessem mais, se vendessem mais, toda a gente seria feliz. E os gregos? Uma corja! E o Varoufakis? Um burro! E o Vítor Bento? Um troca-tintas. Moralize-se por antecipação, que é esse o negócio preferida da direita. Traulite-se e faça-se da esquerda o papão; perore-se sobre Marx sem ter lido o Capital; rezingue-se contra o carácter programático da Constituição da República sem ter perdido algum tempo a ganhar familiariedade com as revisões constitucionais; critique-se a estupidez dos esquerdistas, essa gentalha-caviar-champanhe que diz lutar pelos pobres e só quer mandar, mandar, mandar gente para o Gulag ou para a fila da Segurança Social. O São Hayek não gostava e eles também não. O São Ferraz da Costa diz que é feio e eles também o dizem. A esquerda, esse grande demónio cagado por 1789, precisa de um exorcismo final. Parafraseando certa frase de certo filme brasileiro, a direita não pára. A direita dá um tempo.

É pena que esta direita moralista se tenha esquecido de dizer o que pensa sobre o Lux Leaks e o Swiss Leaks. Sabem tudo sobre o SYRIZA e as sobrancelhas do Tsipras, mas nada sabem sobre o Lux Leaks. Sabem tudo sobre a marca de café mais vendida na Festa do Avante, mas nada sabem sobre o Swiss Leaks. Conhecem os nomes de todos os milhões de assassinados pela União Soviética, mas desconhecem essa coisa de economia-sombra e transfer pricing. Conseguem descrever as caríssimas garrafas de vinho bebidas por esquerdistas publicamente assumidos, mas não fazem ideia de que a economia offshore é uma lavandaria de grandes proporções para traficantes de armas e seres humanos. Os gregos são corruptos e esquerdistas, dizem-nos estas mentes brilhantes. São as mesmas mentes brilhantes que se subtraem aos debates importantes porque o seu jogo é mais vasto e demorado: o socialismo offshore agrada-lhes e não querem ver-se livres dele. É por isso que não ouviremos as cabeças escrevedoras do Observador explicarem o que acham da LIBOR, do HSBC ou do paraíso fiscal anteriormente conhecido como Grão-Ducado. É chato e fere-lhes a estética liberal.


12 março 2015

Exclusividade dos deputados: as razões do medo

AR debate esta quinta-feira proposta do Bloco sobre regime de exclusividade para deputados. Razão suficiente para recuperar este escrito sobre o assunto. 

Há propostas que parecem elementares. Quando 10 milhões de pessoas são representadas, no órgão máximo legislativo do país, por 230 deputados, espera-se que estes sejam exatamente isso: deputados. O Bloco bateu-se por isso no projeto lei que estabelecia a exclusividade no exercício do cargo, chumbado, como sabemos, pela direita e pelo PS.

A justeza da proposta pode ser avaliada pelas respostas que damos a perguntas, também elas, elementares: faz sentido, como aconteceu recentemente, Maria de Belém Roseira sentar-se de manhã à mesa da comissão parlamentar da saúde e à tarde prestar consultadoria a um dos maiores grupos privados do sector (Espírito Santo Saúde)? É aceitável que Vitalino Canas vote matérias relativas ao código de trabalho à sexta-feira e no fim-de-semana se apresente ao serviço como provedor das empresas de trabalho temporário? A democracia é respeitada quando Miguel Frasquilho legisla sobre os controles públicos da banca sendo, ao mesmo tempo, um dos principais diretores do BES?

07 março 2015

A insustentável leveza de um saco plástico



Penso que será consensual a ideia de que os sacos plásticos descartáveis são uma das coisas mais irritantes do mundo, ao nível de uma música do Justin Bieber ou de uma embalagem de “abertura fácil” que não abre facilmente. Não se biodegradam, matam animais de asfixia quando vão parar aos oceanos, são feitos de petróleo, e, ainda por cima, magoam as mãos quando a carga do supermercado é grande. Dificilmente encontraremos uma medida política mais consensual, portanto, do que a erradicação dos malditos sacos descartáveis e a sua substituição por sacos reutilizáveis. Mas não é exatamente isso o que estamos a presenciar em Portugal.

06 março 2015

Mariana Mortágua: "O que os administradores da PT ainda não conseguiram explicar"



"Segundo a auditoria interna da PT, desde pelo menos 2007 que metade do excedente de tesouraria da PT era colocado no BES e no GES, quota que foi subindo até aos 80%, em valor acumulado (ou seja, contando com as renovações dos investimentos):
2007200820092010201120122013
GES/BES (%)48%59%70%60%63%78%80%


É verdade, desde 2000 que a PT tinha uma parceria estratégia com a Caixa Geral de Depósitos e o BES que previa tratamento preferencial e recíproco da operadora para com os dois bancos. Mas ao contrário do que foi sendo dito, e mais uma vez em termos acumulados, a repartição entre CGD e BES não era equitativa. Se analisarmos anualmente, sem contar com as renovações, no ano da venda da VIVO os recursos foram repartidos entre os dois bancos, mas essa não era a regra (a CGD tinha muito menos de metade dos fundos destinados ao BES/GES).

João Camargo: Mas afinal que impostos é que Passos pagou?

João Camargo, dos Precários, ontem no CANAL Q, no programa Inferno, discutiu as questões das dívidas de Passos Coelho à Segurança Social e ao fisco.

02 março 2015

Um Governo de gente honesta


Reunião do Conselho de Ministros

Pedro Passos Coelho: Primeiro-ministro do desfalque à Segurança Social e desmantelamento do regime de exclusividade dos deputados.

Paulo Portas: Vice-Primeiro-ministro para as contrapartidas e assuntos marítimos submergidos.

Maria Luís Albuquerque: Ministra das Finanças e dos SWAPS com vista à ruína das empresas públicas.

Sérgio Silva Monteiro: Secretário de Estado dos Transportes e da renegociação das PPP assinadas por ele próprio.

Bruno Maçães: Secretário de Estado dos Assuntos Europeus para o exercício de agachamento em Berlim.

Miguel Relvas: assessor político para o Ensino Superior.

Franquelim Alves: assessor económico para a banca privada.


01 março 2015

Tiago Gillot: "Uma revelação surpreendente"



Tiago Gillot: "O regime de contribuições para os trabalhadores a recibos verdes é injusto, inadequado e incompreensível para quem nele está incluído. Muitos anos depois do incumprimento de Passos Coelho, as regras são, no essencial, as mesmas. É preciso um novo regime, como a Associação de Combate à Precariedade tem defendido e em cuja proposta concreta está a trabalhar. Passos Coelho, que dirige um Governo que insiste em manter este regime e ainda o piorou nos últimos anos, confessa agora que também não o compreende. Ainda assim, exige que precários com baixos rendimentos façam tudo o que ele não fez: que entendam as regras e que as cumpram, sob pena de severas consequências. É esta a estranha moral de um primeiro-ministro, que decreta um suposto rigor para quem está em dificuldades, mas reserva para si todas as facilidades."